quarta-feira, 11 de março de 2026

Mulheres guerreiras

 

Foi com muita honra que, aceitando o convite para participar na celebração do Dia Internacional da Mulher, promovido pelo Agrupamento de Escolas Diogo Cão, no Teatro de Vila Real, recordei, homenageando, um conjunto de figuras femininas que personificam a resistência e a bravura ao longo dos tempos, em realidades dominadas pelo poder do quero, posso e mando, invariavelmente masculino.

Comecei pelas freiras do Mosteiro de Vitorino das Donas, em Ponte do Lima, que resistiram heroicamente numa luta desigual contra o Bispo de Braga, e continuei com as mulheres de Castro Laboreiro (que substituíram os homens na luta contra o exército galego); a heroína Brianda Pereira, dos Açores (que criou um exército de mulheres contra as tropas de Flipe II, na batalha da Salga); Deu-la-Deu Martins (no Castelo de Monção); Inês Negra (no Castelo de Melgaço); Brites de Almeida (a célebre Padeira de Aljubarrota); Gasparona (que afugentou os espanhóis invasores em Vinhais); Celinda (que enfrentou os sitiadores do Castelo da Sertã com uma gigantesca “certã” cheia de azeite a ferver); as Marias da Fonte (que lideraram a revolta contra a ditadura de Costa Cabral); Dona Catarina, viúva do alcaide de Sabugal (que defendeu até ao limite o seu castelo contra as tropas de D. João II, após este lhe mandar matar o marido); as mulheres de Monsanto (que lançaram das muralhas uma vaca com o bandulho cheio de trigo, livrando o castelo do cerco castelhano).

E não esqueci Catarina Eufémia (que enfrentou o regime salazarista e deu o corpo às balas a defender as ceifeiras do Alentejo), para concluir lembrando a arqueóloga Mila Simões de Abreu (uma guerreira do nosso tempo, que, pela palavra, pelo saber, pela coragem, pela militância, ontem como hoje vemo-la a liderar ou a dinamizar grandes lutas pelas melhores causas da contemporaneidade, sendo a mais notável a batalha pelas gravuras do Côa, nos anos 90, onde nasceu as expressão “as gravuras não sabem nadar”).

Outras mulheres, notáveis ou invisíveis, foram igualmente lembradas e homenageadas pelos meus parceiros de painel: Emanuel Bessa Monteiro, Adérito Silveira, Vasco Amorim, Alexandre Favaios e Álvaro Pinto. De todas as intervenções, colheram-se valiosas lições.

Excelente ideia a das organizadoras. Muito público, especialmente jovens, a assistir. Os meus parabéns renovados.

(in «Diário de Trás-os-Montes, 11-3-2026)


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

 

«Tenho uma vida de homem primitivo que passa o tempo a fazer redações, porque isso é o que dá sentido e direção aos meus dias» e “julgo que não sei fazer mais nada, que não sirvo para mais nada», «sem escrever, mesmo que seguisse vivo, a minha vida perderia todo o sentido», assim o ouvi-o dizer, com uma humildade espantosa, quando, em 6 de junho de 2007, recebeu o Doutoramento Honoris Causa na UTAD, a mais alta distinção que uma Universidade tem para atribuir.

Mas o homem que assim falava era já reconhecido com um dos escritores portugueses mais lidos em todo o mundo, com os seus livros traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, italiano, búlgaro, checo, dinamarquês, esloveno, holandês, norueguês, sueco, romeno, finlandês, etc., etc.

Conheceu a dura guerra colonial, em Angola, que viria a marcar grande parte da sua obra literária, iniciada com a “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”, a que seguiram dezenas de títulos que retratam a realidade portuguesa mais profunda, mais visceral, única na sua força, violência, sarcasmo, ironia. Tantos e tantos têm reconhecido como uma tremenda injustiça ter-lhe sido negado o Prémio Nobel da Literatura.

Partiu hoje, fisicamente, mas fez-nos herdeiros de uma memória inapagável e de uma obra que muito perdurará no tempo.

(in «Diário de Trás-os-Montes», 5-3-2026)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Adeus, princesa...


 Conheci-a há anos em Vila Real. Era vice-reitora da Universidade Lusófona quando veio à UTAD arguir provas académicas na área em que era uma notável especialista: a biologia. Deixou uma marca poderosíssima na argumentação e saber que demonstrava nas suas intervenções.

Estava no seu auge. Era, na verdade, uma princesa. Na ciência, na literatura, na beleza, no doce sorriso que contagiava…

Dizem as notícias de hoje que apareceu morta, sozinha, em sua casa, mergulhada na mais confrangedora solidão. As reações das elites culturais e políticas não se fazem esperar. A galera socialite aproveita para se mostrar. É o costume.

Pergunto eu: e quanta dessa gente não assobiou para o lado quando, há meses, numa entrevista de grande divulgação, mostrava ela a sua desilusão com a vida, passando pela ordem de despejo, sozinha, sem emprego, sem recursos financeiros, a recorrer à Segurança Social, a dar explicações para sobreviver…?

Para homenageá-la, apenas posso recomendar o seu inesquecível romance “Adeus, princesa”, onde a emoção e sensibilidade da história dizem bem da personalidade de quem a escreveu.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A UTAD é nossa! Precisamos dela forte e prestigiada!

 


Dediquei mais de 30 anos à UTAD. Nela fundei e desenvolvi o Gabinete de Comunicação e Imagem, fiz o meu Doutoramento, lecionei 12 disciplinas diferentes em cursos de licenciatura e mestrado e por fim escrevi a História da Universidade.

Vejo-a hoje mergulhada numa controvérsia que não parece ter fim, empurrada (e emperrada) de tribunal para tribunal, impossibilitada de eleger um Reitor. Incapaz de impor essa que foi uma das maiores conquistas da Democracia: o direito sagrado à autonomia universitária.

Custa-me, pessoalmente, assistir a tudo isto. Eu que ainda sou do tempo em que esta tão nobre instituição nasceu. Acompanhei as batalhas de David contra Golias que permitiram impor nos finais do séc. XX impor o IPVR, depois o IUTAD e por fim a UTAD. Todos os avanços foram arrancados a ferros à custa de muitas batalhas. O Marão erguia-se como um obstáculo, mas havia outros ainda mais difíceis de transpor. Elevada a Universidade em 1986, o “milagre” era já reconhecido cá dentro e lá fora. Tanto assim foi que, dois anos depois, o Banco Mundial designava-a como uma “Universidade Modelo”.

Um apelo lanço a todos. À Academia, ao Ministro e também aos deputados que se “digladiaram” na AR. Entendam-se de vez. A UTAD é nossa! Vila Real, Trás-os-Montes e Portugal precisam dela. Forte e prestigiada.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

“Roubado” à UTAD há 27 anos. Finalmente, o Curso de Medicina em Vila Real

Foi um dos grandes trunfos de Luís Montenegro, na reentrada política do Pontal, no Algarve, em agosto de 2024. Anunciou então o Curso de Medicina na UTAD. Este anúncio, no entanto, foi travado dois meses depois pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), cuja comissão de avaliação externa, embora considerando “atrativa” a proposta curricular do curso, justificou a não acreditação com insuficiências ao nível do corpo docente.

Finalmente, hoje mesmo (5-11-2025), foi tornado público que a A3ES, aprovou o Curso de Medicina na UTAD, considerando cumpridas as recomendações formuladas anteriormente com a não acreditação.

Foi longo e penoso o processo. Iniciado pelo antigo reitor Prof. Torres Pereira e agarrado com afinco pelo reitor Carlos Sequeira, nunca a UTAD o abandonou. Carlos Sequeira, o grande estratega  dos principais equipamentos e construções da UTAD, tinha por cumprir esse sonho de criar um curso de Medicina.  Só que o Conselho Geral de então meteu-se ao meio. Disse-lhe que não. Que tínhamos médicos a mais. Imagine-se! E tal bastou para que batesse com a porta. Deixou, voluntariamente, o lugar de Reitor antes do fim do mandato. De cabeça erguida. Como é próprio dos grandes Homens.

Fazendo ainda um pouco de história, há que recordar que foi em 1998, pela mão ousada e incansável de Torres Pereira, que a UTAD, então ainda uma criança com apenas doze anos de vida como Universidade, apresentou uma candidatura irrepreensível, tendo a participação do Prof. Nuno Grande, ilustre vila-realense, fundador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e antigo diretor da Faculdade de Medicina do Porto, com a garantia de um corpo docente de qualidade. Tinha também todos os estudos e pareceres que se impunham e, sobretudo, a participação do Centro Hospitalar de Vila Real, como futuro Hospital Universitário e que evoluiu, entretanto, para Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, já então uma das melhores unidades de saúde do interior do país.

Acontece que, surpreendendo tudo e todos, o então ministro José Sócrates, resolveu puxar a brasa à sua sardinha e levou o Curso de Medicina para a Covilhã. Ele que se dizia um amigo de Trás-os-Montes por força das suas raízes em Vilar de Maçada. Escrevi na altura um artigo na imprensa, onde dizia: “Com amigos assim, Trás-os-Montes não precisa de inimigos”.

Por fim, afigura-se a concretização do sonho. Na pessoa do reitor em exercício Prof. Jorge Ventura, felicito toda a comunidade académica pela competência e compromisso demonstrados neste ambicioso projeto, que trará uma nova vida a Vila Real e a Trás-os-Montes.

(ap)

In Diário de Trás-os-Montes, 5-11-2025

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Honrar a memória não é uma virtude… é um dever


Sílvio Teixeira nos anos 60 era um dos homens proeminentes em Vila Real. Filho de um ourives com loja na rua Direita, transformou o estabelecimento numa loja de ótica e mais tarde dedicou-se também à edição de medalhística, cabendo-lhe a edição e colecionismo das mais importantes medalhas e troféus comemorativos da cidade e de outras regiões.

Como numismata, recuperou e pagou, em 1974, a medalha de prata do Circuito Automóvel de Vila Real datada de 1933, que andava “perdida” e descobriu na zona de Lisboa, alimentando mais tarde, já neste século, uma polémica com a Câmara Municipal que lhe exigiu, por “expropriação”, essa sua medalha.

Mas, o que me leva a recordá-lo hoje aqui? Apenas e só porque graças ao seu gosto pelos produtos de ótica, foi fundador, em 1965, da Fábrica das Lentes, que se tornou uma das maiores empregadoras da cidade, exportando as suas lentes para todo o mundo. Naquele tempo, era o tempo do Estado Novo, trazer para a Bila, escondida pra cá do Marão, um investimento destes era uma aventura que hoje poucos imaginarão. Ao deixar a fábrica, montou uma pequena loja de distribuição das lentes ali produzidas.

Faleceu há alguns anos num lar de idosos da cidade.

Há pouco mais de uma semana, a "sua" Fábrica das Lentes, hoje uma referência mundial, festejou 60 anos de existência. Estranhei não ver o nome de Sílvio Teixeira em lado nenhum.

E mais não digo. Começo a habituar-me a estes “vazios” nas memórias de Vila Real.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Gonçalo Fernandes, o estratega da Excelência

 


O Centro de Estudos em Letras (CEL), liderado pela UTAD numa partilha com a Universidade de Évora, a que me orgulho de pertencer como Investigador Integrado, acaba de obter a classificação de EXCELENTE, ou seja, a posição máxima na avaliação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

Está de parabéns toda a equipa de investigadores, especialmente o seu diretor Gonçalo Fernandes e demais elementos da direção (o vice-diretor Fernando Gomes, da Universidade de Évora, e o secretário-executivo Rolf Kemmler, da UTAD). Muito trabalho e muita qualidade em projetos de áreas científicas fundamentais, muita persistência, publicações reconhecidas na comunidade científica nacional e internacional, objetivos claros e bem fundamentados, foram os grandes trunfos que conduziram o CEL, em vias de atingir os 20 anos de existência, a tão elevada classificação.

Em particular, deixo o meu reconhecimento e louvor ao grande empenho do meu bom amigo Gonçalo Fernandes, professor catedrático, que deixou o lugar de vice-reitor da UTAD, a meio do mandato, para se dedicar, com todo o seu saber e dinamismo, ao plano estratégico deste Centro de Investigação. E o resultado aí está.

In: Diário de Trás-os-Montes

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Lembrando dois "aristocratas" da velha Bila…

 

O Dr. Nuno Botelho, no seu incorrigível instinto desafiador, a provocar o nosso querido Zé Macário, no jantar de aniversário do histórico jornal “A Região”, nos anos 80, no Hotel Tocaio (hoje Hospital da Luz). Era eu o diretor.
Nuno Botelho já partiu. E que saudades deixou! Com porte de aristocrata, era um grande orador, um verdadeiro tribuno, cujos dotes se impunham em qualquer tertúlia. Entre tiradas de humor e ferroadas, citava os clássicos com o mesmo rasgo de um homem do povo a citar provérbios. Era uma escola ambulante de bom senso, valores éticos e cidadania.
O Zé Macário, grande amigo, de olhar arguto, silencioso, sibilino e austero, impecável no traje, sempre galante com as damas, carrega um vasto curriculum de censor vigilante dos desmandos e flagrâncias das classes nobres da velha Bila. Historiador do quotidiano, ninguém lhe escapava no furor crítico de antigo correspondente de jornais. Como fotógrafo, com estúdio aberto que teve na rua Direita, é certamente detentor de um espólio valiosíssimo que documenta as rotinas políticas e sociais que outrora fervilhavam na urbe, no pós 25 de Abril. Valeria a pena catalogá-lo e estudá-lo. Deixo esse desafio.

quarta-feira, 19 de março de 2025

O ADN do grande Camilo continua em Vila Real


Poucos o saberão, mas nas veias deste Homem, o meu grande amigo de há décadas José António Castelo Branco, corre o mesmo sangue de Camilo Castelo Branco, de quem é trineto. Vive em Vila Real.

Bastaria comparar as fisionomias para chegar facilmente a essa conclusão.

É um ator e declamador de grandes méritos, que teima, há anos, numa missão ousada e pouco reconhecida, divulgar nas ruas, em feiras do livro, em bibliotecas, a figura do grande romancista.

E que diz sobre isto o Ministério da Cultura? Alguém da Cultura já se preocupou em saber quem é este Homem e o que faz e em que condições?

Na imagem da direita, registada pela RTP em 1988, eu próprio (porque estava lá) o ouvi a enfrentar Mário Soares, numa visita à UTAD, assumindo a figura de Camilo, e a exclamar:

«Querem homenagear-me, ilustríssimos académicos? Pois bem, estudem-me! Estudem-me nas escolas!»

E, paradoxalmente, hoje, quando se celebra o seu bicentenário, a obra de Camilo continua quase ignorada nas escolas!


sábado, 22 de fevereiro de 2025

Bento da Cruz: faria hoje 100 anos



Nasceu numa pequenina aldeia do Barroso (Peireses) numa família pobre. Em menino, foi um dos humildes pastorinhos que nesse tempo ajudavam, com o seu trabalho, o sustento do lar (o trabalho é pouco, mas quem o perde é louco…). Depois entrou para o seminário para ser padre, que era então a saída possível para um projeto de vida alternativo às agruras do campo. Ainda entrou no noviciado, mas depressa a vocação o empurrou para outros rumos. Outra vocação o fez médico e estabeleceu-se no Barroso, regressando às origens para servir, nessa qualidade, os seus conterrâneos, especialmente os mais humildes. E enquanto lhes curava os males do corpo, curava-se ele da vontade irreprimível de resgatar as memórias e vivências do seu povo, que foi projetando na sua vasta obra literária.

Por isso, não perdemos tudo com a sua partida, há 20 anos, em agosto. Deixou-nos as suas memórias em obras marcantes como: O lobo guerrilheiro, Planalto em chamas, O retábulo das virgens loucas, Histórias de Lana-Caprina, O Lobo Guerrilheiro, Histórias da Vermelhinha e Planalto de Gostofrio.

In: Diário de Trás-os-Montes


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Uma manta e uma broa de pão

 



Num país que se afirma civilizado, em pleno séc. XXI, somos surpreendidos amiudadas vezes por notícias que nos atiram aos olhos situações revoltantes em que se acham os nossos idosos: lares ilegais sem conforto e segurança, com idosos maltratados, humilhados e agredidos; idosos abandonados nos hospitais onde entram nas urgências, depois recebem alta médica mas não têm retaguarda familiar ou institucional que os acolha.

Em 2023, a estatística indicava que perto de 1700 pessoas eram mantidas de “forma inapropriada” nos hospitais. Muitas sem família que as queira ou possa acolher e outras abandonadas pela Segurança Social, que o mesmo é dizer pelo Estado, incapaz de garantir um lugar num lar de 3ª idade a quem apenas recebe uma mísera reforma de 300 euros, sendo o custo médio num lar superior a 1.400.

No lendário de algumas regiões, alude-se, simbolicamente, ao abandono dos velhos em montanhas isoladas. Existem mesmo locais referenciados. No Monte Córdova, em Santo Tirso, há um lugar denominado “Picoto do Pai”, onde a lenda diz que, em tempos idos, os filhos iam deixar os pais para aí terminarem os seus dias, deixando-lhes uma manta e uma broa de pão. Conta-se que um dos velhos levado num carro de bois por um filho, aconselhou-o a que lhe deixasse só metade da manta e levasse a outra metade para quando chegasse o seu torno. “E porquê?” ­ perguntou o filho. “Pois então? ­ respondeu o velho – Até aqui trouxe eu meu pai, tu trouxeste-me a mim, e teu filho há de trazer-te a ti”. Ouvindo tal, o moço apressou-se a repô-lo no carro e voltou com ele para casa, terminando assim por aqueles lados esse terrível costume.

Nesta lenda, historicamente improvável, há uma mensagem simbólica que procura despertar a consciência das sucessivas gerações para que os idosos tenham um entardecer de vida digno. Uma consciência que parece arredia de quem vem governando este país, onde a metade da manta é a miséria das soluções de solidariedade social que o Estado oferece aos seus idosos.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 31-10-2024


sábado, 21 de setembro de 2024

O magnífico Reitor

 


Luiz Paulo Manuel de Menezes de Mello Vaz de Sampayo, antigo Reitor da UTAD, poucos o saberão, mas foi também um notável historiador, um dos mais “incómodos” historiadores dos finais do séc. XX, ao corrigir graves erros da História de Portugal.

Por exemplo, como genealogista, demonstrou, com documentação irrefutável, o erro histórico ou a ilusão que outros historiadores alimentavam, sobre a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo.

Mas demonstrou mais: Portugal perdeu a independência para Espanha em 1580 por absoluta ignorância ou má-fé de uma certa nobreza frustrada ou falida desse tempo. Na verdade, o Prof. Sampayo, com quem tive o gosto de trabalhar, divulgou em 1997 o “assento de batismo” de D. António Prior do Crato, datado de 1544, que foi descobrir na Sé de Évora, o qual provava ser filho legítimo de D. Manuel I (e não ilegítimo como a História tem insistido ao longo dos séculos). Por essa razão, seria ele, legitimamente, o 18º Rei de Portugal e não, como sucedeu, o Rei Filipe II de Espanha. Para além da velha e triste ilusão de que D. Sebastião viria salvar a nação num cavalo branco em manhã de nevoeiro... foram 60 anos de hegemonia espanhola que nunca deveriam ter acontecido.

Luiz Sampayo nasceu em França e morreu em 2006, em Vila Real, praticamente ignorado pela comunidade e pelas instituições. Injustamente.

Aqui lhe presto a minha homenagem.


terça-feira, 27 de agosto de 2024

Portugal a ficar sem engenheiros florestais



            Os dias dramáticos que se viveram com os incêndios florestais na Madeira, a juntar a realidades trágicas ainda recentes que bem conhecemos, colocam, mais uma vez, o dedo numa ferida que o país teima em ignorar.

            Na comunidade científica, tem sido frequente a alusão a uma tipologia de “incêndios de sexta geração”, também designados por “tempestades de fogo”, fenómenos associados às alterações climáticas, que modificam a meteorologia no território, geram ventos erráticos, stress hídrico nos espaços florestais, o que aumenta a velocidade de propagação do fogo em todas as frentes.

Realidades novas impõem estratégias novas. Impõe-se uma visão de futuro para as especificidades do território. O Interior, abandonado, desumanizado, está sob ameaça crescente nestes períodos tórridos de verão. A floresta portuguesa precisa de uma revolução com medidas alicerçadas no conhecimento técnico-científico.

Paradoxalmente, assistimos ao abandono dos cursos de Engenharia Florestal no ensino superior. A Universidade de Lisboa (ISA) apenas conseguiu atrair sete candidatos na 1ª fase do concurso nacional de acesso. A UTAD e o Politécnico de Coimbra conseguiram, cada um, apenas dois. Está visto que os jovens fogem desta profissão como o diabo da cruz, apesar da necessidade acentuada dos agentes económicos na busca de tais profissionais. Por isso, não há desemprego. O que haverá é uma falta de comunicação ou motivação por parte das instituições com responsabilidades no processo. Adivinha-se, assim, um futuro ainda mais amargo para a floresta, com a falta destes profissionais.

Porque será que as áreas afins, como é o caso dos cursos de Biologia, têm grande adesão de alunos, quando se sabe (ou deveria saber) que a Engenharia Florestal é hoje uma Biologia Aplicada ao território e o seu papel é gerir todos os recursos naturais que nele existem e a sua biodiversidade?

Já é tempo de a floresta a ser notícia, não como um mundo de problemas, mas como um mundo de oportunidades.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 27-8-2024


sexta-feira, 19 de julho de 2024

Fausto e o poder de poder dizer


Foi já visivelmente debilitado na sua frágil saúde que Fausto Bordalo Dias (1948-2024), numa entrevista televisiva, ousou pronunciar estas palavras: «Cabo Verde não existiria como país independente, se Portugal não tivesse levado para lá pessoas (…). Muitos países africanos foram mais felizes, infelizmente, com Portugal, do que são agora. Quando uma independência não concorre para a felicidade dos povos, alguma coisa está errada.».

Se outro fosse, que não Fausto, a dizê-lo, quantas vozes não trovejariam no vendaval dos céus político-mediáticos?

Na verdade, só a circunstância de ser um génio permite que assim o diga no desassombro de um jeito que, nos dias de hoje, é comum carimbar como politicamente incorreto. Só ao génio, levando em boa conta o pensamento estético de Kant, é permitido libertar-se dos valores impostos, afrontar consensos. O desvio da regra comum fica-lhe bem, a coragem é mérito. Livre de toda a culpa, o génio é uma espécie de herói que se alavanca na deformidade das normas. Para o homem medíocre, essa deformidade é um erro. Para o génio, não.

            “Eu sou eu e a minha circunstância, e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, disse o filósofo Ortega y Gasset. Daí que o verdadeiro poder esteja sempre na circunstância do que somos. Primeiro, é preciso saber ser, mais do que saber estar. Saber estar é uma habilidade social, um modelo estratégico de adaptação a diferentes contextos sociais; saber ser é uma imposição de carácter, de autonomia, abnegação. É, pois, um dos requisitos mais poderosos da personalidade humana.

            Uma personalidade que Fausto, figura ímpar e irrepetível, o contador de histórias que pela música e metáfora das palavras pôde recontar alguns dos capítulos mais grandiosos da História de Portugal, consignou em páginas de ouro da música portuguesa.

in Jornal de Notícias, 19-7-2024


sexta-feira, 14 de junho de 2024

As origens transmontanas de Camões

 

A memória oral como recurso historiográfico sempre encontrou resistência nos olhares da academia tradicional. Contudo, reconhecem hoje muitos historiadores, acompanhando a visão dos antropólogos, o quanto vale a memória oral para suprimir a carência e/ou adulteração das fontes escritas, quando não entendidas como autossuficientes para a compreensão da História.

Perante isto, e em face das ambiguidades sobre as origens de Luís de Camões (não se sabe onde, nem quando, nem como nasceu, nem onde estudou ou quem lhe ensinou o muito que sabia), há que resgatar da memória oral a informação possível para preencher tamanhos vazios. Na verdade, a aldeia transmontana de Vilar de Nantes, muito próxima da Galiza, conserva a tradição oral secular de que as origens do poeta estão ali. A uma casa, que ostenta gravado o ano de 1574 como data de construção, o povo sempre chamou “Casa dos Camões”, e, à entrada da povoação, uma placa diz ser aquela a “terra do pai e avós de Camões”. E foi tocado por esta áurea da história oral que José Guilherme Calvão Borges, um militar e heraldista flaviense, conseguiu, no início da década de 70 do século passado, elementos seguros sobre a genealogia de Camões relativos à residência de Antão Vaz e Simão Vaz de Camões (respetivamente avô e pai do poeta) na aldeia de Vilar de Nantes.

 Também eu, num trabalho académico dos anos 90, assinalei um soneto de Camões, escrito em língua galega, que começa “Alá en Monte Rey, em Bal de Laça (,,,)”, com alusão, no seu horizonte visual, a uma jovem, de nome Biolante, camponesa, por quem o poeta se terá deslumbrado. Para quem não sabe, Monterrey e Vale de Lassa são localidades fronteiriças que se avistam de Vilar de Nantes. A presença deste soneto entre a vastíssima obra do poeta poderá, assim, documentar uma adolescência ali vivida.

Quando se inicia o cinquentenário de Camões, por que não desafiar as universidades, historiadores e linguistas para um estudo aprofundado sobre esta causa?


In JORNAL DE NOTÍCIAS, 14-06-2024


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Aos 99 anos, é a “decana” dos animadores culturais

 


            Conheci-a num destes dias, nas minhas rotinas pelo país profundo, em busca dos tesouros da memória que hão de preencher o livro que tenho em mãos. Hermínia Coutinho, 99 anos, animadora cultural. Descobri-a na pequena aldeia de Couto, freguesia de Adoufe, numa vertente da serra do Alvão, com vistas para Vila Real. Recebeu-me, rodeada de taças, medalhas e diplomas, no seu pequeno gabinete do Centro Cultural “Mãos à Obra” que fundou há meio século e de que é presidente.

            Mas fundou também o Rancho Folclórico de Couto-Adoufe, de que não só é presidente como principal animadora, ensaiadora e compositora das suas mais impactantes modinhas. Faz versos e músicas como quem respira. “Faço uma poesia e ponho-lhe logo uma música em cima”, foi-me dizendo. Criou ainda o Grupo Etnográfico do Linho e pôs o povo inteiro da aldeia a cultivar o linho no campo, quando já esta atividade estava perdida. Montou depois um tear artesanal e organizou formação para raparigas de todo o país. “Algumas hoje são doutoras, mas aprenderam a tecer comigo”, confessou com orgulho.

            Pelo meio recolheu e publicou o cancioneiro tradicional da freguesia, fez peças de teatro, adaptou outras, e pôs os filhos, desde tenra idade, uns como atores, outros como executantes, a tocar acordeão, viola, violino, violão (um deles, Fernando Lapa, é nome cimeiro da música clássica como maestro e compositor; um dos netos já deu cartas no The Voice…).

            Certamente, no próximo 10 de junho, o Presidente Marcelo não vai incluí-la na lista de condecorações. Era só o que faltava! Há universos culturais e simbólicos enraizados no Portugal profundo que, por ignorância ou preconceito, sempre passaram ao largo da lógica snob e bafienta dos salões da capital.

            Socialista inflexível, o presidente Rui Santos escolheu-a, quase centenária, para sua mandatária nas eleições autárquicas em Vila Real. E ganhou. Também eu ganhei o dia quando a visitei em busca das suas histórias. Almas penadas, bruxas e lobisomens continuam a “fervilhar” nas suas memórias. Quem as quiser conhecer, procure-as no meu próximo livro.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 30-05-2024


quinta-feira, 18 de abril de 2024

O mito da Europa sequestrada

 

     Em tempos de crise e incerteza, seja de uma comunidade, seja de uma nação, ou de um continente, é sempre valioso recorrer à linguagem dos mitos, reinterpretando-os na sua simbologia. Não é em vão que a mitologia grega ecoa no tempo como cerne da sabedoria antiga, trazida por filósofos e poetas, na ideia de que a organização do mundo obedece aos desígnios e caprichos dos deuses.

    A Europa, Velho Continente, nasce de um mito: o mito de um rapto e sequestro de uma princesa com esse nome, filha do rei Agenor, que brincava livremente com as companheiras nos campos floridos da velha Fenícia. De beleza deslumbrante, personificava o tipo mais belo e doce que se podia imaginar. Daí que lhe não resistisse a gula de um deus supremo, Zeus, pai e soberano de um vasto roal de outros deuses, que a observava do Olimpo, e a raptou, transformado num touro gigante, transportando-a pelos mares para a ilha de Creta, onde, adotando a figura humana, a usou na sua luxúria e a fez rainha, deixando-a com três filhos, o mais velho Minos, futuro rei de Creta. 

    Quando o irmão de Europa, Cadmo, a procurou pelo mundo e a não achou, foi aconselhar-se com o oráculo de Delfos, que lhe lavrou a sentença: “Não continues a tua busca! A Europa, protegida por um deus, fundou uma nova Civilização! O mundo há de um dia render-se aos seus pés!” 

    E cumpriu-se a profecia. O nome da rainha de Creta ecoou de Nação em Nação, uniu culturas, religiões e etnias, aproximou os povos, construiu uma identidade. Hoje, Europa, novamente sequestrada, agora por interesses diabólicos, que alimentam duas guerras e acenam com o fantasma da sua desagregação, precisa de recuperar o sentido do velho mito, que serviu a Heródoto para lembrar que este mito guarda uma verdade, o que importa é saber interpretá-la. A Europa é, pois, uma invenção cultural, e, como diz T.S. Eliot, “se perecer como organismo espiritual, o que restará para a organizar materialmente já não será Europa”.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 18-4-2024


sábado, 13 de abril de 2024

Ele faz acontecer o imaginário!

 

António Fontinha, mora dentro das histórias que conta. É um dos pioneiros da nova vaga da narração oral em Portugal. Com um talento invulgar, a que empresta toda a fisionomia do seu corpanzil esguio, todo ele é comunicação. Comunica com os braços e mãos enormes, as pernas, os ombros, os olhos, a boca, o nariz, as sobrancelhas, as carrancas, mais aquele sotaque meio alfacinha, meio alentejano, e desse jeito faz regressar os contos tradicionais à oralidade, ao seu habitat, num tempo em que os antigos narradores da memória já vão desaparecendo.

Descobri-o em 1998 quando estava a escrever o livro «A Comunicação e a Literatura Popular», que resultou da minha tese de mestrado em Ciências da Comunicação, e dei-o a conhecer aos meios académicos. E desde então ficámos grandes amigos. É hoje mais conhecido que feijão em cardápio de quartel. As escolas agitam-se para conseguirem tê-lo a contar histórias nas suas bibliotecas. Parabéns grande Fontinha, a ver se te encontro um dia destes!

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sexta-feira, 5 de abril de 2024

Contar com o Douro

 


Com a sugestiva denominação “Contos d’OIRO… ContaDOUROs”, prepara-se a companhia de teatro FILANDORRA para lançar, na região do Douro Património Mundial, um audacioso projeto de animação cénica e cultural, sob os auspícios da Direção-Geral das Artes, em torno do lendário do vasto território duriense.

Neste singular desafio, destinado a aproximar gerações, desde o ensino pré-escolar e ensino básico, à população sénior das IPSS e Misericórdias, estão contemplados os municípios de Peso da Régua, Sabrosa, Cinfães, Resende, Mesão Frio, Sta Marta de Penaguião, Vila Real, Lamego, Armamar, Moimenta da Beira, Murça, Alijó, Sernancelhe, Penedono, S. João da Pesqueira, Carrazeda de Ansiães, Foz-Côa, Figueira de Castelo Rodrigo e Freixo de Espada à Cinta.

            Com o Douro, graças à marca da UNESCO, colocado nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (mais de 200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), é agora o tempo de um Douro oculto, um Douro cultural, de gente, de memórias, um Douro antigo gravado no trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, cinzelou as margens de um rio, moldou a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular. Um Douro onde as histórias brotam da paisagem, como se os penedos fossem castelos e o rumorejar do rio e das ribeiras a voz das personagens.

            Esta aventura, de contar o Douro com o Douro, vai certamente contribuir para a autoestima das populações, valorizando os seus conhecimentos, os seus saberes ancestrais, as suas manifestações de cultura popular, e garanti-los como herança para as gerações vindouras. Porque a cada geração cabe a responsabilidade de passar à seguinte o seu testemunho, para que o fio da memória não seja quebrado.

Felicito a FILANDORRA por esta visão dinâmica do território. Dinamizá-lo através da Cultura é a melhor forma de honrar os seus valores e as suas gentes.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 4-4-2024


quinta-feira, 28 de março de 2024

Joaquim Miranda Sarmento

 


Corre-lhe nas veias sangue transmontano. Filho do meu saudoso amigo Zé Sarmento, de Curopos (antigo inspetor da Judiciária, um Homem de rara cultura, também licenciado em Gestão) e da minha amiga Aldina, de Espinhoso (uma Senhora de grande ternura, que tocava fundo na emoção a quem a ouvia), ambos precocemente falecidos.

Já em criança dava mostras de uma desenvoltura intelectual e perspicaz observação que lhe auguravam um rumo notável no futuro de Portugal.

Sabemos bem das armadilhas que lhe irão ser montadas. Especialmente pelos carroceiros birrentos da política que se estão a borrifar para o futuro e harmonia democrática da Nação.

Fico a torcer pelo seu sucesso. Não só pela admiração e amizade que partilhamos, mas pela convicção de que é ele, de facto, como Ministro de Estado e das Finanças, um dos mais valiosos ativos da nova governação de Portugal.

(Na foto, a receber, autografada, a minha «História da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro»)