quarta-feira, 11 de março de 2026

Mulheres guerreiras

 

Foi com muita honra que, aceitando o convite para participar na celebração do Dia Internacional da Mulher, promovido pelo Agrupamento de Escolas Diogo Cão, no Teatro de Vila Real, recordei, homenageando, um conjunto de figuras femininas que personificam a resistência e a bravura ao longo dos tempos, em realidades dominadas pelo poder do quero, posso e mando, invariavelmente masculino.

Comecei pelas freiras do Mosteiro de Vitorino das Donas, em Ponte do Lima, que resistiram heroicamente numa luta desigual contra o Bispo de Braga, e continuei com as mulheres de Castro Laboreiro (que substituíram os homens na luta contra o exército galego); a heroína Brianda Pereira, dos Açores (que criou um exército de mulheres contra as tropas de Flipe II, na batalha da Salga); Deu-la-Deu Martins (no Castelo de Monção); Inês Negra (no Castelo de Melgaço); Brites de Almeida (a célebre Padeira de Aljubarrota); Gasparona (que afugentou os espanhóis invasores em Vinhais); Celinda (que enfrentou os sitiadores do Castelo da Sertã com uma gigantesca “certã” cheia de azeite a ferver); as Marias da Fonte (que lideraram a revolta contra a ditadura de Costa Cabral); Dona Catarina, viúva do alcaide de Sabugal (que defendeu até ao limite o seu castelo contra as tropas de D. João II, após este lhe mandar matar o marido); as mulheres de Monsanto (que lançaram das muralhas uma vaca com o bandulho cheio de trigo, livrando o castelo do cerco castelhano).

E não esqueci Catarina Eufémia (que enfrentou o regime salazarista e deu o corpo às balas a defender as ceifeiras do Alentejo), para concluir lembrando a arqueóloga Mila Simões de Abreu (uma guerreira do nosso tempo, que, pela palavra, pelo saber, pela coragem, pela militância, ontem como hoje vemo-la a liderar ou a dinamizar grandes lutas pelas melhores causas da contemporaneidade, sendo a mais notável a batalha pelas gravuras do Côa, nos anos 90, onde nasceu as expressão “as gravuras não sabem nadar”).

Outras mulheres, notáveis ou invisíveis, foram igualmente lembradas e homenageadas pelos meus parceiros de painel: Emanuel Bessa Monteiro, Adérito Silveira, Vasco Amorim, Alexandre Favaios e Álvaro Pinto. De todas as intervenções, colheram-se valiosas lições.

Excelente ideia a das organizadoras. Muito público, especialmente jovens, a assistir. Os meus parabéns renovados.

(in «Diário de Trás-os-Montes, 11-3-2026)


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

 

«Tenho uma vida de homem primitivo que passa o tempo a fazer redações, porque isso é o que dá sentido e direção aos meus dias» e “julgo que não sei fazer mais nada, que não sirvo para mais nada», «sem escrever, mesmo que seguisse vivo, a minha vida perderia todo o sentido», assim o ouvi-o dizer, com uma humildade espantosa, quando, em 6 de junho de 2007, recebeu o Doutoramento Honoris Causa na UTAD, a mais alta distinção que uma Universidade tem para atribuir.

Mas o homem que assim falava era já reconhecido com um dos escritores portugueses mais lidos em todo o mundo, com os seus livros traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, italiano, búlgaro, checo, dinamarquês, esloveno, holandês, norueguês, sueco, romeno, finlandês, etc., etc.

Conheceu a dura guerra colonial, em Angola, que viria a marcar grande parte da sua obra literária, iniciada com a “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”, a que seguiram dezenas de títulos que retratam a realidade portuguesa mais profunda, mais visceral, única na sua força, violência, sarcasmo, ironia. Tantos e tantos têm reconhecido como uma tremenda injustiça ter-lhe sido negado o Prémio Nobel da Literatura.

Partiu hoje, fisicamente, mas fez-nos herdeiros de uma memória inapagável e de uma obra que muito perdurará no tempo.

(in «Diário de Trás-os-Montes», 5-3-2026)