terça-feira, 6 de outubro de 2026

UNESCO não “rima” com touradas



Ainda por aí uma “consulta pública”, pedida pelo Instituto Património Cultural, para a classificação das “touradas” como Património Cultural Imaterial nacional, com vista a uma candidatura à UNESCO para a sua classificação como Património Mundial.

Que coisa absurda! E ainda por cima suportada com dinheiros públicos…

Como pode o Ministério da Cultura acalentar uma proposta destas, sabendo-se que se trata de uma matéria tão fraturante na sociedade portuguesa? É ou não verdade que uma parte significativa do país abomina este incôngruo e presumido “ato cultural”?

E depois, já pensaram nas fortes barreiras na UNESCO? Havendo um órgão das Nações Unidas, no caso o Comité dos Direitos da Criança, comprometido com a proteção dos mais jovens face à violência das touradas, seria incompreensível um outro órgão das Nações Unidas (a UNESCO), elevá-las a Património da Humanidade. Já não falando na Declaração da Cultura de Paz, cujo movimento a UNESCO criou em 1999, baseado no respeito à vida e na promoção da não-violência por meio da educação.

Querer atribuir o estatuto de “ato cultural” a espetáculos com tortura de sangue em animais para aplauso e diversão do público é hoje intolerável. A geração que aí vem (a dos que hoje são meninos e que nas escolas ganham laços de ternura com os animais e uma nova consciência dos seus direitos) irá, certamente, sentir náuseas ao recordar estes pretensos “atos culturais” que alguns sonhadores querem elevar a Património da Humanidade.

in: Diário de Trás-os-Montes, 6-10-2026

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Recupere-se a autoridade e o prestígio dos professores!

 


.Hoje, Dia Mundial do Professor, eu, professor também, deixo aqui a minha mensagem de solidariedade com a luta diária, desgastante, mal recompensada, dos nossos professores, uma profissão da qual os jovens fogem como o diabo da cruz.

Com as minhas armas, tudo faço e farei para participar nessa luta e prestigiar uma classe profissional que algumas franjas da sociedade ainda hoje procuram humilhar, se não mesmo aterrorizar.

Acabe-se com a violência nas escolas e com a impunidade de alunos mal-comportados e arruaceiros. Penalize-se criminal e exemplarmente encarregados de educação que agridem, intimidam e ameaçam professores. Acabe-se com a terrível burocracia que recai sobre os professores, alivie-se o peso arrasador e absurdo da sua rotina profissional que os obriga a trabalhar de dia e de noite, madrugada fora. Acabe-se com as colocações a dezenas e dezenas de Kms de casa, que os obrigam a gastar quase metade do ordenado nas deslocações. Dêem-lhes condições para poderem também ter uma família.

E então sim, tal como antigamente, qualquer jovem alimentará o sonho de um dia poder vir a ser professor. As escolas tornar-se-ão num espaço onde apetece estar. O ensino superior encher-se-á de candidatos à docência, e jamais faltarão professores de qualidade nas escolas.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Vai em paz, velho companheiro!

 

José Viale Moutinho (1945-2026) escreveu um dia: «Sair assim de repente / e a contragosto não é / sequer um direito meu /a penetrar no paraíso»

Mas vimo-lo partir esta madrugada. Quando os anos começam a pesar sobre nós, estaremos, irremediavelmente, condenados a ver partir os companheiros de jornada. Meu colega do jornalismo nos anos 80 e 90 (ele no “Diário de Notícias”, eu na ANOP e no “Comércio do Porto”), Viale Moutinho foi um mestre e um exemplo de qualidade e rigor na escrita que projetava nos velhos “linguados”.

Gigante de corpo e alma, tornou-se, para além do jornalismo, um paladino da palavra literária, um escultor de linguagens, que projetou numa vasta obra acarinhada por todos os públicos (“Os Cimentos da Noite”, “Cenas da vida de um Minotauro”, “Monstruosidades do tempo do infortúnio”…), e especialmente pelo público infantil (“A Menina da Janela das Persianas Azuis”, “O Rapaz de Pedra”, “Manhas de Gato Pardo”, “Os Dois Fradinhos”, “A Vassoura Voadora”, “Sapinho e Sapão”, “A Estrela Perdida”…).

Com o seu talento, ajudou muitas crianças a ganhar o gosto pela leitura. Oxalá as escolas e as famílias continuem a acarinhar a sua obra.

Aqui deixo a minha sentida homenagem a mais um amigo e companheiro que vejo partir.

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Mulheres guerreiras

 

Foi com muita honra que, aceitando o convite para participar na celebração do Dia Internacional da Mulher, promovido pelo Agrupamento de Escolas Diogo Cão, no Teatro de Vila Real, recordei, homenageando, um conjunto de figuras femininas que personificam a resistência e a bravura ao longo dos tempos, em realidades dominadas pelo poder do quero, posso e mando, invariavelmente masculino.

Comecei pelas freiras do Mosteiro de Vitorino das Donas, em Ponte do Lima, que resistiram heroicamente numa luta desigual contra o Bispo de Braga, e continuei com as mulheres de Castro Laboreiro (que substituíram os homens na luta contra o exército galego); a heroína Brianda Pereira, dos Açores (que criou um exército de mulheres contra as tropas de Flipe II, na batalha da Salga); Deu-la-Deu Martins (no Castelo de Monção); Inês Negra (no Castelo de Melgaço); Brites de Almeida (a célebre Padeira de Aljubarrota); Gasparona (que afugentou os espanhóis invasores em Vinhais); Celinda (que enfrentou os sitiadores do Castelo da Sertã com uma gigantesca “certã” cheia de azeite a ferver); as Marias da Fonte (que lideraram a revolta contra a ditadura de Costa Cabral); Dona Catarina, viúva do alcaide de Sabugal (que defendeu até ao limite o seu castelo contra as tropas de D. João II, após este lhe mandar matar o marido); as mulheres de Monsanto (que lançaram das muralhas uma vaca com o bandulho cheio de trigo, livrando o castelo do cerco castelhano).

E não esqueci Catarina Eufémia (que enfrentou o regime salazarista e deu o corpo às balas a defender as ceifeiras do Alentejo), para concluir lembrando a arqueóloga Mila Simões de Abreu (uma guerreira do nosso tempo, que, pela palavra, pelo saber, pela coragem, pela militância, ontem como hoje vemo-la a liderar ou a dinamizar grandes lutas pelas melhores causas da contemporaneidade, sendo a mais notável a batalha pelas gravuras do Côa, nos anos 90, onde nasceu as expressão “as gravuras não sabem nadar”).

Outras mulheres, notáveis ou invisíveis, foram igualmente lembradas e homenageadas pelos meus parceiros de painel: Emanuel Bessa Monteiro, Adérito Silveira, Vasco Amorim, Alexandre Favaios e Álvaro Pinto. De todas as intervenções, colheram-se valiosas lições.

Excelente ideia a das organizadoras. Muito público, especialmente jovens, a assistir. Os meus parabéns renovados.

(in «Diário de Trás-os-Montes, 11-3-2026)


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

 

«Tenho uma vida de homem primitivo que passa o tempo a fazer redações, porque isso é o que dá sentido e direção aos meus dias» e “julgo que não sei fazer mais nada, que não sirvo para mais nada», «sem escrever, mesmo que seguisse vivo, a minha vida perderia todo o sentido», assim o ouvi-o dizer, com uma humildade espantosa, quando, em 6 de junho de 2007, recebeu o Doutoramento Honoris Causa na UTAD, a mais alta distinção que uma Universidade tem para atribuir.

Mas o homem que assim falava era já reconhecido com um dos escritores portugueses mais lidos em todo o mundo, com os seus livros traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, italiano, búlgaro, checo, dinamarquês, esloveno, holandês, norueguês, sueco, romeno, finlandês, etc., etc.

Conheceu a dura guerra colonial, em Angola, que viria a marcar grande parte da sua obra literária, iniciada com a “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”, a que seguiram dezenas de títulos que retratam a realidade portuguesa mais profunda, mais visceral, única na sua força, violência, sarcasmo, ironia. Tantos e tantos têm reconhecido como uma tremenda injustiça ter-lhe sido negado o Prémio Nobel da Literatura.

Partiu hoje, fisicamente, mas fez-nos herdeiros de uma memória inapagável e de uma obra que muito perdurará no tempo.

(in «Diário de Trás-os-Montes», 5-3-2026)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Adeus, princesa...


 Conheci-a há anos em Vila Real. Era vice-reitora da Universidade Lusófona quando veio à UTAD arguir provas académicas na área em que era uma notável especialista: a biologia. Deixou uma marca poderosíssima na argumentação e saber que demonstrava nas suas intervenções.

Estava no seu auge. Era, na verdade, uma princesa. Na ciência, na literatura, na beleza, no doce sorriso que contagiava…

Dizem as notícias de hoje que apareceu morta, sozinha, em sua casa, mergulhada na mais confrangedora solidão. As reações das elites culturais e políticas não se fazem esperar. A galera socialite aproveita para se mostrar. É o costume.

Pergunto eu: e quanta dessa gente não assobiou para o lado quando, há meses, numa entrevista de grande divulgação, mostrava ela a sua desilusão com a vida, passando pela ordem de despejo, sozinha, sem emprego, sem recursos financeiros, a recorrer à Segurança Social, a dar explicações para sobreviver…?

Para homenageá-la, apenas posso recomendar o seu inesquecível romance “Adeus, princesa”, onde a emoção e sensibilidade da história dizem bem da personalidade de quem a escreveu.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A UTAD é nossa! Precisamos dela forte e prestigiada!

 


Dediquei mais de 30 anos à UTAD. Nela fundei e desenvolvi o Gabinete de Comunicação e Imagem, fiz o meu Doutoramento, lecionei 12 disciplinas diferentes em cursos de licenciatura e mestrado e por fim escrevi a História da Universidade.

Vejo-a hoje mergulhada numa controvérsia que não parece ter fim, empurrada (e emperrada) de tribunal para tribunal, impossibilitada de eleger um Reitor. Incapaz de impor essa que foi uma das maiores conquistas da Democracia: o direito sagrado à autonomia universitária.

Custa-me, pessoalmente, assistir a tudo isto. Eu que ainda sou do tempo em que esta tão nobre instituição nasceu. Acompanhei as batalhas de David contra Golias que permitiram impor nos finais do séc. XX impor o IPVR, depois o IUTAD e por fim a UTAD. Todos os avanços foram arrancados a ferros à custa de muitas batalhas. O Marão erguia-se como um obstáculo, mas havia outros ainda mais difíceis de transpor. Elevada a Universidade em 1986, o “milagre” era já reconhecido cá dentro e lá fora. Tanto assim foi que, dois anos depois, o Banco Mundial designava-a como uma “Universidade Modelo”.

Um apelo lanço a todos. À Academia, ao Ministro e também aos deputados que se “digladiaram” na AR. Entendam-se de vez. A UTAD é nossa! Vila Real, Trás-os-Montes e Portugal precisam dela. Forte e prestigiada.