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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Extingue-se a Direção Regional de Cultura…e depois?

 


“Povos do interior, uni-vos!” Em jeito de exortação, foi com estas palavras que Pedro Santana Lopes, Secretário de Estado da Cultura em 1994, marcou o seu discurso na abertura, em Vila Real, da Delegação Regional da Cultura do Norte, ao ousar transferi-la do Porto para Trás-os-Montes.

As intensões do governante eram claras. A capital do Norte já estava bem servida de equipamentos culturais. Era chegada a hora de descentralizar os serviços e dinamizar o interior cultural, “com vista à criação de condições de acesso aos bens culturais em todo o território nacional e de uma forma geograficamente equilibrada” (Dec. Reg. Nº 3/94 de 9 de Fevereiro).

Tal decisão abalou, não apenas o “estatuto” quase aristocrático da Invicta como macrocosmos cultural, mas também os interesses aí instalados, ao ponto de, dois anos passados, com novo partido, novo governo e muitas pressões políticas, ser anunciado o regresso da Delegação ao Porto. Um propósito só travado por um extenso baixo-assinado que dezenas de instituições e agentes culturais transmontanos fizeram chegar, em novembro de 1996, ao Ministro Manuel Maria Carrilho, com fundamentos que terão valido (pelo menos na teoria) para que, extinta a Delegação Regional em 2006, a Direção-Regional de Cultura do Norte (DRCN) conservasse a sede em Vila Real.

Finalmente, decidida a extinção da DRCN e as suas competências a passarem para organismos sedeados no Porto (mas que bela descentralização!), um desses organismos, designado “Património Cultural, I.P.”, vai ter por missão a salvaguarda do património cultural imóvel e imaterial. O decreto-lei que o criou identifica a audição de nove organizações e associações de reconhecido mérito. Porém, não vi aí a Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, a única que conheço com know- how credível no domínio do PCI. Uma lacuna incompreensível.

in Jornal de Notícias, 19-12-2023 


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Desmemoriar para melhor escravizar


É deveras inquietante para a humanidade o apelo que a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, teve de lançar aos jovens, desde a Universidade de Bagdad, para que usem todos os meios ao seu alcance, especialmente as redes sociais, no combate à campanha de "limpeza cultural" a que está sendo sujeita a República do Iémen, com as ações orquestradas de destruição do seu património cultural pelos grupos extremistas do Estado Islâmico. O património do Iémen é único. Grande parte está classificada como Património Mundial. Nela se mostram séculos de reflexão sobre o Islão. A destruição do museu da cidade setentrional de Mossul e vários sítios arqueológicos, como os de Nimrud e Hatra, bem como a difusão pelos jiadistas de um vídeo que mostra a destruição de esculturas pré-islâmicas de valor inestimável, estão ainda vivas na memória recente.
 
Um apelo desta natureza aos jovens, implicando-os num combate ativo pela defesa do património, acentua também a noção de que o património cultural não é um bem exclusivo de uma geração. A nenhuma geração cabe o direito de fazer dele o que bem entende, nem tão pouco de sujeitá-lo aos seus caprichos civilizacionais, pois trata-se de um legado da cosmogonia de um povo, ou seja, a herança da sua memória coletiva, havendo que acautelar o direito que a ela também têm as gerações futuras. E tudo porque a memória tem também um papel normativo, especialmente quando, representada no património comum (material ou imaterial), lhe cabe inserir os indivíduos numa cadeia de filiação identitária.
 
Daí que a campanha de "limpeza cultural" a que se assiste no Iémen deva alertar-nos para o maquiavelismo de uma estratégia (tratando-se de uma estratégia e não de um sórdido vandalismo apenas) apostada numa "queima de arquivo" da memória de um povo. Aliás, nem sequer é original esta estratégia e conhecem-se bem os efeitos de outras que a história dificilmente apaga. Bem sabemos como a cristandade se empenhou em destruir, na Península Ibérica, os documentos árabes do séc. VIII, como forma de eliminar a verdade da memória muçulmana, ou impedir, posteriormente, a sua reconstituição. De facto, para melhor dominar um povo, escravizá-lo mesmo, há que "sugar-lhe" a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a identidade. Chama-se a isso desmemoriação.
(AP)
in Jornal de Notícias, 10-4-2015