«Tenho uma vida de homem
primitivo que passa o tempo a fazer redações, porque isso é o que dá sentido e
direção aos meus dias» e “julgo que não sei fazer mais nada, que não sirvo para
mais nada», «sem escrever, mesmo que seguisse vivo, a minha vida perderia todo
o sentido», assim o ouvi-o dizer, com uma humildade espantosa, quando, em 6 de
junho de 2007, recebeu o Doutoramento Honoris Causa na UTAD, a mais alta
distinção que uma Universidade tem para atribuir.
Mas o homem que assim
falava era já reconhecido com um dos escritores portugueses mais lidos em todo
o mundo, com os seus livros traduzidos para alemão, castelhano, catalão,
francês, italiano, búlgaro, checo, dinamarquês, esloveno, holandês, norueguês,
sueco, romeno, finlandês, etc., etc.
Conheceu a dura guerra
colonial, em Angola, que viria a marcar grande parte da sua obra literária,
iniciada com a “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”, a que seguiram
dezenas de títulos que retratam a realidade portuguesa mais profunda, mais visceral,
única na sua força, violência, sarcasmo, ironia. Tantos e tantos têm
reconhecido como uma tremenda injustiça ter-lhe sido negado o Prémio Nobel da
Literatura.
Partiu hoje, fisicamente,
mas fez-nos herdeiros de uma memória inapagável e de uma obra que muito
perdurará no tempo.
(in «Diário de Trás-os-Montes», 5-3-2026)