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sexta-feira, 5 de abril de 2024

Contar com o Douro

 


Com a sugestiva denominação “Contos d’OIRO… ContaDOUROs”, prepara-se a companhia de teatro FILANDORRA para lançar, na região do Douro Património Mundial, um audacioso projeto de animação cénica e cultural, sob os auspícios da Direção-Geral das Artes, em torno do lendário do vasto território duriense.

Neste singular desafio, destinado a aproximar gerações, desde o ensino pré-escolar e ensino básico, à população sénior das IPSS e Misericórdias, estão contemplados os municípios de Peso da Régua, Sabrosa, Cinfães, Resende, Mesão Frio, Sta Marta de Penaguião, Vila Real, Lamego, Armamar, Moimenta da Beira, Murça, Alijó, Sernancelhe, Penedono, S. João da Pesqueira, Carrazeda de Ansiães, Foz-Côa, Figueira de Castelo Rodrigo e Freixo de Espada à Cinta.

            Com o Douro, graças à marca da UNESCO, colocado nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (mais de 200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), é agora o tempo de um Douro oculto, um Douro cultural, de gente, de memórias, um Douro antigo gravado no trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, cinzelou as margens de um rio, moldou a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular. Um Douro onde as histórias brotam da paisagem, como se os penedos fossem castelos e o rumorejar do rio e das ribeiras a voz das personagens.

            Esta aventura, de contar o Douro com o Douro, vai certamente contribuir para a autoestima das populações, valorizando os seus conhecimentos, os seus saberes ancestrais, as suas manifestações de cultura popular, e garanti-los como herança para as gerações vindouras. Porque a cada geração cabe a responsabilidade de passar à seguinte o seu testemunho, para que o fio da memória não seja quebrado.

Felicito a FILANDORRA por esta visão dinâmica do território. Dinamizá-lo através da Cultura é a melhor forma de honrar os seus valores e as suas gentes.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 4-4-2024


domingo, 25 de dezembro de 2016

O Douro (o)culto

 
Celebrou-se por estes dias, na justa medida da dignidade do evento, os 15 anos da classificação pela UNESCO do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Como é próprio das celebrações, foi uma oportunidade para refletir sobre os desafios que o selo de Património Mundial impôs no Douro e sobre novas dinâmicas que assegurem um crescimento sustentado salvaguardando a autenticidade do território. Uma oportunidade também para louvar o trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, conseguiu moldar a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular enquanto paisagem “evolutiva viva”.

Vencida esta batalha, que colocou o Douro nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), há “outro” Douro que continua de fora. Na mesma medida em que uma paisagem “evolutiva viva” cresce, um Douro cultural de gente, de memória, definha. Entidades e organismos que vemos trombetear nas celebrações, alguns com responsabilidades na área da cultura, ignoram que o Alto Douro Vinhateiro não é apenas um espaço físico. É também um espaço semiotizado com a memória coletiva como suporte; um espaço de Património Imaterial que provém das raízes do povo e que está ameaçado de extinção nos 13 concelhos que compõem o território. Todo ele é caracterizado por um universo mítico-lendário associado às singularidades assombrosas da paisagem, mas também aos lugares de memória como são os vestígios de povos antigos, com os seus labores, os seus cultos pagãos, a sua religiosidade cristã (lagares cavados em rochas, gravuras rupestres, megálitos, grutas, castros, torres, capelas…), um universo de que a toponímia rural e os testemunhos da população idosa são, muitas vezes, a única fonte de informação disponível.

Este espólio faz parte de uma cultura imaterial, intangível, encerrada em arcas de memória frágeis. Os narradores da memória, “tesouros vivos” deste património, cuja proteção a UNESCO reclama dos estados, estão absolutamente desprotegidos no Douro Património Mundial. O abandono das aldeias e a retirada dos idosos para lares de terceira idade, sem, no mínimo, se acautelar um plano de salvaguarda dos seus testemunhos, através de um inventário sistematizado de Património Imaterial, é o maior flagelo civilizacional do nosso tempo. Hoje trombeteia-se a paisagem “evolutiva viva” para amanhã se prantear a paisagem “evolutiva morta”.
 
Alexandre Parafita
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 24-12-2016