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quarta-feira, 31 de maio de 2023

A heroica resistência dos professores

 


O que vemos, ouvimos e lemos traz-nos o retrato de um país enleado no desgoverno de líderes e decisores que, em seus atos desorientados, vêm ensombrar os horizontes de esperança que um novo ciclo de oportunidades vinha alimentando. Portugal, assim, mais parece um país-caravela, que navega à deriva em águas turbulentas, na busca, desesperada, de uma âncora que quanto mais se deseja mais ela tarda.

Pior que tudo ainda é assistirmos à destruição dos seus alicerces: a educação. É vergonhoso o trato a que está sujeita uma das classes profissionais mais imprescindíveis do país. A desautorização, o desrespeito, a humilhação, nas escolas e na sociedade, o congelamento de carreiras, as estranhas regras de mobilidade, a terrível burocracia a recair sobre os professores, as turmas e horários sobrecarregados, a violência impune nas escolas… vêm tornando o exercício da profissão de professor numa verdadeira tortura, não se vislumbrando, mau grado a profusão de greves e manifestações, sinais animosos de compreensão e justiça por parte de quem tem o poder de governar e decidir.

Ainda assim, os professores conseguem fazer milagres, ser inventivos, contrariando as desventuras de um sistema que lhes retira direitos de ano para ano, de um sistema inibidor do entusiasmo e da criatividade. E continuam a obter resultados, a plantar sorrisos entre as crianças, a abrir rumos de esperança no seio dos jovens.

Queiramos que, neste malbaratar de oportunidades e de bom senso, haja ainda uma réstia de decoro, e que a heroica resistência dos professores, com tantos sacrifícios já sofridos, permita, finalmente, recuperar a paz e a esperança de que a educação em Portugal tanto carece. E convençamo-nos de que, se ainda há esperança para Portugal, ela está na educação.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 31-5-2023


sábado, 15 de outubro de 2022

Conseguirá ele dormir descansado?

 

Em menos de quinze dias, assistimos a estes dois desfechos dramáticos:

Primeiro, a Prof.ª Josefa Marques, do concelho de Almeida, doente oncológica, de 51 anos, requereu, como sempre fizera em anos anteriores, a mobilidade por doença para trabalhar próximo do seu domicílio, mas este ano, com a mudança da legislação, acabou colocada em Oleiros, a 207 kms de casa. Morreu sem obter resposta ao seu apelo junto do Ministério da Educação.

Agora, a Prof.ª Fernanda Barros, de Chaves, com a mesma idade, que há três anos estava colocada no seu concelho com mobilidade por doença incapacitante (problemas hepáticos, insuficiência cardíaca, diabetes, obesidade mórbida, três enfartes nos últimos anos e três cateterismos), pediu para continuar no seu concelho, mas, perante a nova (e hedionda) lei do Ministério, teve de regressar à escola onde é efetiva, em Castelo de Paiva. Também acabou por morrer, esta semana, sem conseguir resposta ao seu apelo junto do Ministério da Educação.

Que país é este, afinal? E como pôde este Ministro da Educação produzir uma lei ardilosa e desumana que limita, aos requerentes de mobilidade por doença incapacitante, a colocação numa escola num raio de até 50kms em “linha reta”? Só quem não conhece (ou não quer conhecer) a realidade do interior deste país pode urdir uma legislação tão estranha.

Conseguirá o Ministro dormir descansado, perante estes trágicos desfechos?

A minha homenagem à memória destas duas professoras e a minha solidariedade com as lágrimas e a revolta dos seus milhares de colegas, familiares e amigos.

https://www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor/


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Recupere-se a autoridade e o prestígio dos professores!

 


Para refletir, especialmente, hoje, o Dia Mundial do Professor:

Acabe-se com a violência nas escolas e com a impunidade de alunos mal comportados e arruaceiros. Penalize-se criminal e exemplarmente encarregados de educação que agridem, intimidam e ameaçam professores. Acabe-se com a terrível burocracia que recai sobre os professores (até os processos relativos ao “cheque dentista” dos alunos estão sobre os seus ombros…), alivie-se o peso arrasador e absurdo da sua rotina profissional (turmas e horários sobrecarregados, testes, planos de aulas, planos de recuperação, aulas de apoio, reuniões sobre reuniões, resmas de atas, grelhas, relatórios...) que os obrigam a trabalhar de dia e de noite, madrugada fora. Acabe-se com as colocações a 100 e a 200 Kms de casa, que obrigam os professores a gastar quase metade do ordenado nas deslocações. Dêem-lhes condições para poderem também ter uma família.

E então sim, tal como antigamente, qualquer jovem alimentará o sonho de um dia poder vir a ser professor. As escolas tornar-se-ão num espaço onde apetece estar. O ensino superior encher-se-á de candidatos à docência, e jamais faltarão professores de qualidade nas escolas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

O drama e o sonho de ser professor

 

A professora Patrícia Ferreira viaja de Vila Real até Aljustrel (cumprindo uma rota complexa de 555 kms: Vila Real – Porto – Lisboa – Évora – Beja – Aljustrel) para continuar a alimentar o sonho de ser professora, como bem se narrou na Grande Reportagem da SIC Notícias.

O pouco que ganha fica-lhe nas viagens e no alojamento. Certamente, a única compensação que continua a permitir-lhe alimentar o sonho de ser professora estará na felicidade dos seus alunos ao receberem-na em cada nova semana e na ternura dos abraços do filho e marido que ansiosamente a esperam em cada regresso a casa.

Este é o drama de milhares de professores. Muitos outros optam por deslocar-se, diariamente, durante mais de 300 quilómetros para darem as suas aulas. Compensação monetária (como acontece em outras profissões com bem melhores remunerações), nenhuma. Deixam aí o pouco que ganham e o que gastam nem sequer o conseguem descontar no IRS.

Para cúmulo, o Ministério da Educação vomitou este ano a porcaria de uma lei que, sob a ardilosa justificação de ajudar os professores com doenças incapacitantes, lhes oferece a possibilidade de concorrerem a escolas num raio de até 50 kms em “linha reta”, o que obriga, nas estradas serpenteadas do interior do país, a deslocações de mais de hora e meia. Um professor nestas condições ainda irá ter de inventar tempo e meios para fazer os seus tratamentos médicos, seja de oncologia, hemodiálise e outros.

Enfim, como se vê, temos um Ministério da Educação nada amigo dos professores.

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor