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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Bento da Cruz: faria hoje 100 anos



Nasceu numa pequenina aldeia do Barroso (Peireses) numa família pobre. Em menino, foi um dos humildes pastorinhos que nesse tempo ajudavam, com o seu trabalho, o sustento do lar (o trabalho é pouco, mas quem o perde é louco…). Depois entrou para o seminário para ser padre, que era então a saída possível para um projeto de vida alternativo às agruras do campo. Ainda entrou no noviciado, mas depressa a vocação o empurrou para outros rumos. Outra vocação o fez médico e estabeleceu-se no Barroso, regressando às origens para servir, nessa qualidade, os seus conterrâneos, especialmente os mais humildes. E enquanto lhes curava os males do corpo, curava-se ele da vontade irreprimível de resgatar as memórias e vivências do seu povo, que foi projetando na sua vasta obra literária.

Por isso, não perdemos tudo com a sua partida, há 20 anos, em agosto. Deixou-nos as suas memórias em obras marcantes como: O lobo guerrilheiro, Planalto em chamas, O retábulo das virgens loucas, Histórias de Lana-Caprina, O Lobo Guerrilheiro, Histórias da Vermelhinha e Planalto de Gostofrio.

In: Diário de Trás-os-Montes


sexta-feira, 23 de junho de 2023

O decano dos jornalistas

 


Completou este ano 70 anos de jornalismo. De jornalismo ativo, ininterrupto, com carteira profissional atualizada até 2024. Julgo não haver em Portugal um jornalista com tal dinâmica, longevidade e jovialidade. Daí designá-lo decano dos jornalistas portugueses.

João Barroso da Fonte, começou como pastor de vezeira e de vacas numa pequena aldeia do Barroso, dividindo o dia entre o trabalho infantil e a escola primária. Confessou numa entrevista recente que, com cinco anos de idade, já ia com os bovinos para os lameiros. E assim cresceu com a energia renovada dos renovos que despontam nos campos. Foi seminarista, combateu em África, foi jornalista do JN, fundou e/ou dirigiu jornais e revistas (“Comércio de Guimarães”, “A Voz de Guimarães”. “Gil Vicente”, “Poetas & Trovadores”, “9 Séculos”), foi colunista em 224 periódicos (inclusive no semanário “A Região”, sob a minha direção nos finais dos anos 80), escreveu dezenas de livros (poesia, ficção, ensaio), dirigiu o Paço dos Duques de Bragança e a delegação da Comunicação Social do Norte, foi vereador da cultura em Guimarães.

Enquanto combatia no Ultramar, escrevia para a revista “Crónica Feminina”, a troco de 80 escudos por artigo, recebidos em cheque pela esposa, em Guimarães, para ajuda no sustento dos filhos.

Fundou o Gabinete de Imprensa de Guimarães em 1976, responsável pelos primeiros cursos de formação de jornalistas em Portugal financiados pelo FAOJ, e, de seguida, lançou o Instituto Português da Imprensa Regional (IPIR), que permitiu aos profissionais e colaboradores da imprensa regional usufruir de um cartão de acreditação, legitimado pelo Governo, que conferia aos titulares os mesmos direitos da Carteira Profissional dos jornalistas.

 E, hoje continua a fazer furor com os artigos que escreve na imprensa regional. A energia é a mesma dos tempos áureos. Com ela planta e difunde cultura, saber, humanidade.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 23-6-2023


segunda-feira, 11 de junho de 2012

António Lourenço Fontes: Um padre em busca de um Céu na Terra


Confessou, numa biografia que sobre si se escreveu há uns dez anos atrás, ter escolhido ir para o Seminário para poder ter um rádio. Isto porque, nos recuados anos quarenta do Sec. XX, possuir um rádio representava um poder sem igual. E quem o possuía na sua aldeia, Cambezes do Rio, era, unicamente, o pároco, que do alto da janela, onde o exibia orgulhoso, dava oportunidade aos paroquianos de ouvirem as celebrações religiosas.

Para o Padre Fontes, contudo, possuir um rádio traduzia um poder que ia para além do prestígio. Era um poder que valia pela capacidade única de avistar horizontes amplos, infindáveis, mas também de permitir uma certa evasão intelectual. E foi, em boa verdade, este poder que começou por seduzir o Padre Fontes na inocência dos seus primeiros anos.

“Não vás para padre que te capam”, ainda o avisaram os vizinhos. Mas a ninguém deu ouvidos, nascendo assim um dos padres mais conhecidos e mais controversos do país. Irreverente quanto baste, mediático, combativo, insatisfeito, tornou-se um verdadeiro “ex-libris” das terras de Barroso. Só para o conhecerem, formam-se fiadas de excursões de todo o País. Enche, como poucos, as igrejas onde celebra.

Homem simples, comum, rebelde, satírico, respingão, jamais se afastou do perfil conspícuo de cura de aldeia, preocupado com a melhoria espiritual e material da vida dos seus paroquianos. Ganhou, no entanto, relevo natural o carisma de homem público, estudioso da cultura do seu povo, conferencista atarefado, resistente a caprichos convencionais das autoridades religiosas, cultivador de “ciumeiras” corporativas.

Quando em tempos lhe perguntaram se, como homem “bem apessoado”, nunca teve intimidades com mulheres, ele respondeu simplesmente:

– Não tenho por que me queixar.

Tal e qual. Espontâneo e directo. Deixando ao critério de ouvidos mal ou bem intencionados o desfrute caprichoso da resposta ambígua. Assim é o Padre Fontes. Um homem que luta em prol de um Céu na própria Terra (situada no Barroso, de preferência). Perto das imperfeições humanas e longe de algumas obsessões clericais.


Ps. – Muitos esperavam que ontem (10 de junho) o Presidente da República condecorasse o Padre Fontes, correspondendo ao apelo de um número de qualificados proponentes (pelo menos uma dezena de deputados da Nação). Apelo ignorado, como se viu, o que em nada nos espantou: há universos culturais e simbólicos enraizados no Portugal profundo que, por ignorância ou preconceito, continuam a passar ao largo da lógica snob e bafienta dos salões da capital.


Alexandre Parafita
in Diário de Trás-os-Montes

Foto de Ana André
Legenda: Alexandre Parafita, Bento da Cruz, Padre Fontes, Pires Cabral