sexta-feira, 14 de junho de 2024

As origens transmontanas de Camões

 

A memória oral como recurso historiográfico sempre encontrou resistência nos olhares da academia tradicional. Contudo, reconhecem hoje muitos historiadores, acompanhando a visão dos antropólogos, o quanto vale a memória oral para suprimir a carência e/ou adulteração das fontes escritas, quando não entendidas como autossuficientes para a compreensão da História.

Perante isto, e em face das ambiguidades sobre as origens de Luís de Camões (não se sabe onde, nem quando, nem como nasceu, nem onde estudou ou quem lhe ensinou o muito que sabia), há que resgatar da memória oral a informação possível para preencher tamanhos vazios. Na verdade, a aldeia transmontana de Vilar de Nantes, muito próxima da Galiza, conserva a tradição oral secular de que as origens do poeta estão ali. A uma casa, que ostenta gravado o ano de 1574 como data de construção, o povo sempre chamou “Casa dos Camões”, e, à entrada da povoação, uma placa diz ser aquela a “terra do pai e avós de Camões”. E foi tocado por esta áurea da história oral que José Guilherme Calvão Borges, um militar e heraldista flaviense, conseguiu, no início da década de 70 do século passado, elementos seguros sobre a genealogia de Camões relativos à residência de Antão Vaz e Simão Vaz de Camões (respetivamente avô e pai do poeta) na aldeia de Vilar de Nantes.

 Também eu, num trabalho académico dos anos 90, assinalei um soneto de Camões, escrito em língua galega, que começa “Alá en Monte Rey, em Bal de Laça (,,,)”, com alusão, no seu horizonte visual, a uma jovem, de nome Biolante, camponesa, por quem o poeta se terá deslumbrado. Para quem não sabe, Monterrey e Vale de Lassa são localidades fronteiriças que se avistam de Vilar de Nantes. A presença deste soneto entre a vastíssima obra do poeta poderá, assim, documentar uma adolescência ali vivida.

Quando se inicia o cinquentenário de Camões, por que não desafiar as universidades, historiadores e linguistas para um estudo aprofundado sobre esta causa?


In JORNAL DE NOTÍCIAS, 14-06-2024


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Aos 99 anos, é a “decana” dos animadores culturais

 


            Conheci-a num destes dias, nas minhas rotinas pelo país profundo, em busca dos tesouros da memória que hão de preencher o livro que tenho em mãos. Hermínia Coutinho, 99 anos, animadora cultural. Descobri-a na pequena aldeia de Couto, freguesia de Adoufe, numa vertente da serra do Alvão, com vistas para Vila Real. Recebeu-me, rodeada de taças, medalhas e diplomas, no seu pequeno gabinete do Centro Cultural “Mãos à Obra” que fundou há meio século e de que é presidente.

            Mas fundou também o Rancho Folclórico de Couto-Adoufe, de que não só é presidente como principal animadora, ensaiadora e compositora das suas mais impactantes modinhas. Faz versos e músicas como quem respira. “Faço uma poesia e ponho-lhe logo uma música em cima”, foi-me dizendo. Criou ainda o Grupo Etnográfico do Linho e pôs o povo inteiro da aldeia a cultivar o linho no campo, quando já esta atividade estava perdida. Montou depois um tear artesanal e organizou formação para raparigas de todo o país. “Algumas hoje são doutoras, mas aprenderam a tecer comigo”, confessou com orgulho.

            Pelo meio recolheu e publicou o cancioneiro tradicional da freguesia, fez peças de teatro, adaptou outras, e pôs os filhos, desde tenra idade, uns como atores, outros como executantes, a tocar acordeão, viola, violino, violão (um deles, Fernando Lapa, é nome cimeiro da música clássica como maestro e compositor; um dos netos já deu cartas no The Voice…).

            Certamente, no próximo 10 de junho, o Presidente Marcelo não vai incluí-la na lista de condecorações. Era só o que faltava! Há universos culturais e simbólicos enraizados no Portugal profundo que, por ignorância ou preconceito, sempre passaram ao largo da lógica snob e bafienta dos salões da capital.

            Socialista inflexível, o presidente Rui Santos escolheu-a, quase centenária, para sua mandatária nas eleições autárquicas em Vila Real. E ganhou. Também eu ganhei o dia quando a visitei em busca das suas histórias. Almas penadas, bruxas e lobisomens continuam a “fervilhar” nas suas memórias. Quem as quiser conhecer, procure-as no meu próximo livro.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 30-05-2024


quinta-feira, 18 de abril de 2024

O mito da Europa sequestrada

 

     Em tempos de crise e incerteza, seja de uma comunidade, seja de uma nação, ou de um continente, é sempre valioso recorrer à linguagem dos mitos, reinterpretando-os na sua simbologia. Não é em vão que a mitologia grega ecoa no tempo como cerne da sabedoria antiga, trazida por filósofos e poetas, na ideia de que a organização do mundo obedece aos desígnios e caprichos dos deuses.

    A Europa, Velho Continente, nasce de um mito: o mito de um rapto e sequestro de uma princesa com esse nome, filha do rei Agenor, que brincava livremente com as companheiras nos campos floridos da velha Fenícia. De beleza deslumbrante, personificava o tipo mais belo e doce que se podia imaginar. Daí que lhe não resistisse a gula de um deus supremo, Zeus, pai e soberano de um vasto roal de outros deuses, que a observava do Olimpo, e a raptou, transformado num touro gigante, transportando-a pelos mares para a ilha de Creta, onde, adotando a figura humana, a usou na sua luxúria e a fez rainha, deixando-a com três filhos, o mais velho Minos, futuro rei de Creta. 

    Quando o irmão de Europa, Cadmo, a procurou pelo mundo e a não achou, foi aconselhar-se com o oráculo de Delfos, que lhe lavrou a sentença: “Não continues a tua busca! A Europa, protegida por um deus, fundou uma nova Civilização! O mundo há de um dia render-se aos seus pés!” 

    E cumpriu-se a profecia. O nome da rainha de Creta ecoou de Nação em Nação, uniu culturas, religiões e etnias, aproximou os povos, construiu uma identidade. Hoje, Europa, novamente sequestrada, agora por interesses diabólicos, que alimentam duas guerras e acenam com o fantasma da sua desagregação, precisa de recuperar o sentido do velho mito, que serviu a Heródoto para lembrar que este mito guarda uma verdade, o que importa é saber interpretá-la. A Europa é, pois, uma invenção cultural, e, como diz T.S. Eliot, “se perecer como organismo espiritual, o que restará para a organizar materialmente já não será Europa”.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 18-4-2024


sábado, 13 de abril de 2024

Ele faz acontecer o imaginário!

 

António Fontinha, mora dentro das histórias que conta. É um dos pioneiros da nova vaga da narração oral em Portugal. Com um talento invulgar, a que empresta toda a fisionomia do seu corpanzil esguio, todo ele é comunicação. Comunica com os braços e mãos enormes, as pernas, os ombros, os olhos, a boca, o nariz, as sobrancelhas, as carrancas, mais aquele sotaque meio alfacinha, meio alentejano, e desse jeito faz regressar os contos tradicionais à oralidade, ao seu habitat, num tempo em que os antigos narradores da memória já vão desaparecendo.

Descobri-o em 1998 quando estava a escrever o livro «A Comunicação e a Literatura Popular», que resultou da minha tese de mestrado em Ciências da Comunicação, e dei-o a conhecer aos meios académicos. E desde então ficámos grandes amigos. É hoje mais conhecido que feijão em cardápio de quartel. As escolas agitam-se para conseguirem tê-lo a contar histórias nas suas bibliotecas. Parabéns grande Fontinha, a ver se te encontro um dia destes!

https://www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor


sexta-feira, 5 de abril de 2024

Contar com o Douro

 


Com a sugestiva denominação “Contos d’OIRO… ContaDOUROs”, prepara-se a companhia de teatro FILANDORRA para lançar, na região do Douro Património Mundial, um audacioso projeto de animação cénica e cultural, sob os auspícios da Direção-Geral das Artes, em torno do lendário do vasto território duriense.

Neste singular desafio, destinado a aproximar gerações, desde o ensino pré-escolar e ensino básico, à população sénior das IPSS e Misericórdias, estão contemplados os municípios de Peso da Régua, Sabrosa, Cinfães, Resende, Mesão Frio, Sta Marta de Penaguião, Vila Real, Lamego, Armamar, Moimenta da Beira, Murça, Alijó, Sernancelhe, Penedono, S. João da Pesqueira, Carrazeda de Ansiães, Foz-Côa, Figueira de Castelo Rodrigo e Freixo de Espada à Cinta.

            Com o Douro, graças à marca da UNESCO, colocado nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (mais de 200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), é agora o tempo de um Douro oculto, um Douro cultural, de gente, de memórias, um Douro antigo gravado no trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, cinzelou as margens de um rio, moldou a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular. Um Douro onde as histórias brotam da paisagem, como se os penedos fossem castelos e o rumorejar do rio e das ribeiras a voz das personagens.

            Esta aventura, de contar o Douro com o Douro, vai certamente contribuir para a autoestima das populações, valorizando os seus conhecimentos, os seus saberes ancestrais, as suas manifestações de cultura popular, e garanti-los como herança para as gerações vindouras. Porque a cada geração cabe a responsabilidade de passar à seguinte o seu testemunho, para que o fio da memória não seja quebrado.

Felicito a FILANDORRA por esta visão dinâmica do território. Dinamizá-lo através da Cultura é a melhor forma de honrar os seus valores e as suas gentes.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 4-4-2024


quinta-feira, 28 de março de 2024

Joaquim Miranda Sarmento

 


Corre-lhe nas veias sangue transmontano. Filho do meu saudoso amigo Zé Sarmento, de Curopos (antigo inspetor da Judiciária, um Homem de rara cultura, também licenciado em Gestão) e da minha amiga Aldina, de Espinhoso (uma Senhora de grande ternura, que tocava fundo na emoção a quem a ouvia), ambos precocemente falecidos.

Já em criança dava mostras de uma desenvoltura intelectual e perspicaz observação que lhe auguravam um rumo notável no futuro de Portugal.

Sabemos bem das armadilhas que lhe irão ser montadas. Especialmente pelos carroceiros birrentos da política que se estão a borrifar para o futuro e harmonia democrática da Nação.

Fico a torcer pelo seu sucesso. Não só pela admiração e amizade que partilhamos, mas pela convicção de que é ele, de facto, como Ministro de Estado e das Finanças, um dos mais valiosos ativos da nova governação de Portugal.

(Na foto, a receber, autografada, a minha «História da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro»)


quarta-feira, 13 de março de 2024

Tesouros da Memória

 


Atento aos impactos da globalização no pensamento e vivência das sociedades modernas, nos seus efeitos paradoxalmente homogeneizadores e desintegradores das identidades, abracei o projeto “Tesouros da Memória”, com incidência na região transmontana, no âmbito do Centro de Estudos em Letras da UTAD.


A preocupação maior é identificar e apresentar um vasto elenco de “narradores da memória”, tomando como valiosos os seus testemunhos na transmissão às novas gerações da memória cultural da sua comunidade. Na linha dos grandes teóricos (Benjamin, Le Goff, Proust…), reconhece-se que há uma ferida que as sociedades contemporâneas teimam em ignorar. O exercício dialógico intergeracional vai fraquejando década após década. A tradição e a memória diluem-se, com as novas gerações a encararem como anacrónica a mentalidade das gerações anteriores, o que resulta numa crise de valores a dar lugar a uma crise de identidade. E numa sociedade sem o aconchego da identidade e da memória, sem um quadro de referências sólidas e respeitáveis, as futuras gerações arriscam-se a viver desamparadas numa sociedade global. Como escreveu o Padre Fontes, “os povos são como as árvores; cortando-lhes as raízes, secam”.

 

Para este desenraizamento contribui o próprio Ministério da Educação ao permitir que a disciplina de História nas escolas tenha decaído para uma expressão minúscula, com consequências negativas na formação das novas gerações. Há valores, identidades, memórias, bem como o desenvolvimento do espírito crítico dos adultos de amanhã, que se perdem. A resposta ao que o hoje é estará sempre no que o ontem foi e como foi, porque nada começa agora, e o agora é a continuação do ontem, e o ontem é já um esboço do amanhã.


Por isso, é fatal desmemoriar uma Nação. Para melhor dominar um povo, basta "sugar-lhe" a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a identidade. 

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 12-3-2024