quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O que simboliza, afinal, o 5 de outubro?

 

1 . A UNESCO, em 1994, criou o Dia Mundial do Professor para ser celebrado a 5 de outubro. Um dia para homenagear os professores e reafirmar a dignidade e a importância que lhes é devida enquanto pilar da sociedade. Algo que, infelizmente, em Portugal, anda deveras ignorado, e, por isso, os professores não param de lutar.

2 . Mas Portugal adotou a mesma data para comemoração da Implantação da República, contemplando-a com um feriado nacional.

3 . Entretanto, parece andar esquecido que foi também a 5 de outubro de 1143 que nasceu Portugal como nação independente. O Tratado de Zamora, resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e Afonso VII de Leão, seu primo, que aconteceu neste dia, assinala o nascimento do Reino de Portugal. Uma boa razão, pois, para celebrar também a mesma data com esse significado.

Portanto, para mim, Professor e Republicano, mas irredutível respeitador da História de Portugal, o feriado do 5 de outubro vale por tudo o que vai dito.

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor


terça-feira, 26 de setembro de 2023

A paz não se dá…

 

Ouvi, há anos, a um velho transmontano, de Espinhoso, Vinhais, desses que designo de “narradores da memória”, esta singela parábola: Quando Nosso Senhor andava pelo mundo, juntaram-se uns poucos de fiéis e foram pedir-lhe:

– Divino Mestre, precisamos de ser felizes. E como somos bons cristãos, apenas vos pedimos quatro coisas: pão, carne, vinho e paz.

Nosso Senhor respondeu:

– Só posso dar-vos pão, carne e vinho. A paz tereis de ser vós a consegui-la.

É ouvindo estas singulares lições, que os flagelos de um tempo atulhado de hostilidades e incertezas fazem permanecer atuais, que, há muito, me bato pela urgência em reconhecer como válida esta outra “universidade”. Infelizmente estas “escolas” estão a fechar depressa demais. E, pelo caminho, vão ficando por descobrir as valiosas teorias filosóficas de um povo sábio. Um povo de olhos no Céu para achar respostas na Terra.

Para ouvi-lo, há que ir ao terreno, indagar sobre a pragmática dos seus saberes. Saberes convertidos em histórias que nos lisonjeiam a alma. Saberes que não aprenderam nos livros, mas em aulas práticas nas convenções e rotinas das tornajeiras e vezeiras, partilhas de água, na energia cinética dos moinhos, nos fiandeiros, na urdideira dos teares, nas celebrações rituais, nas rotinas ecotelúricas do minguante ao crescente, no belo horrível das tempestades, na espiritualidade das crenças, na estética do nascer e pôr-do-sol, na sinfonia dos campos e dos bosques, ou no silêncio diáfano das montanhas. Aí se recebem valiosas lições de economia aplicada, de epistemologia das ciências experimentais, lógica e retórica, semiótica das linguagens, metafísica, filosofia da estética…

Tantas escolas e universidades frequentei, que me permitiram possuir todos os títulos académicos que um cidadão pode conseguir, e, afinal, o que mais recordo e aproveito ainda são os saberes que vou colhendo no seio deste povo!

In Jornal de Notícias, 26-9-2023

terça-feira, 12 de setembro de 2023

O Douro “imaterial” por descobrir

 

A Região do Douro é, toda ela, um desafio permanente para os olhos e para o coração. Se os olhos descobrem em cada pedaço da paisagem um mosaico sublime de beleza, o coração é tocado pelo mistério e magia das suas gentes, dos seus costumes, das suas crenças, bem retratados nos seus contos e lendas.

O aparato da paisagem – com os seus fenómenos naturais, os vales profundos, as escarpas assombrosas, os nevoeiros, os penedos imensos imitando seres diabólicos, o rumorejar das ribeiras e riachos… – ajudou a criar muitas narrações orais. Por isso, algumas são o resultado das interpretações populares desses mistérios, enquanto outras são a explicação para muitas capelas, grutas, nomes de povoações, de lugares, de montanhas, de fragas, de esculturas antigas ou ruínas de castros.

Quando usamos a expressão “terra-mãe” ao falarmos da nossa terra, do espaço das nossas origens, reconhecemos nela um domínio espiritual sobre nós. Por isso, quando estamos longe, e regressamos à nossa terra, é como se voltássemos ao aconchego do colo materno. É como se voltássemos para reviver todas as histórias que iluminaram a nossa infância. Histórias que brotam da paisagem, como se os penedos fossem os castelos e o rumorejar dos rios a voz das personagens.

Por tudo isto, reconhece-se a urgência nas ações de resgate da memória oral nos espaços físicos e espirituais deste território, onde o desaparecimento acelerado da população idosa compromete a possibilidade de inventariar e estudar os conteúdos marcantes do seu património imaterial. Uma preocupação a que, felizmente, também a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM-Douro) não é alheia, ao inscrever no seu plano estratégico para a presente década (2020-2030) um compromisso com a inventariação do património imaterial do Douro, enquanto “elemento fundamental de promoção e valorização da identidade e espírito duriense”.

In Jornal de Notícias de hoje (12-9-2023)


domingo, 27 de agosto de 2023

A antecâmara de uma parcela do paraíso

 

(foto de João Carrola)

É assim, ao anoitecer, a entrada no campus da UTAD. A magia do silêncio reconforta o olhar e afaga o desejo indomável de entrar e descobrir. “Entre quem é”, diria Torga.

Amanhã mesmo, e até 4ª feira, cerca de milhar e meio de novos alunos, que ganharam o direito e o privilégio de entrar nesta Universidade, irão descobrir esta parcela de paraíso, que em tempos apelidei de “oásis de biodiversidade”. Um oásis de vida e de aprendizagem, singular em Portugal e no mundo, que mantém um ecossistema de organismos vivos, onde, entre as nuances de verde, há espécies vegetais que contam histórias dos quatro cantos do mundo, enquanto servem de poleiros naturais a toda a sorte de passarada cantante. 

A harmonia deste ecossistema tanto nos sugere o “hino à natureza” de Torga como “as quatro estações” de Vivaldi. E da mesma forma que os instrumentos musicais se harmonizam para formarem uma melodia sublime, também aqui os organismos vivos se conjugam no equilíbrio do ecossistema para que a perfeição do eco-campus da UTAD seja igualmente sublime.

A oportunidade de estudar nesta Universidade é, pois, um desafio tão estimulante como enriquecedor. Os meus parabéns aos novos caloiros. 

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

UTAD: 50 anos de história

 

Completa-se este mês meio século. Meio século de um percurso combativo, desde os alvores dos anos 70 do século passado, na defesa dos interesses de uma região então votada ao mais completo marasmo.

Impõe-se, por isso, o dever de recordar o papel dos grandes pioneiros da instituição e a sua luta efetiva pela descentralização (Veiga Simão, Tomás Espírito Santo, Cardoso Simões, António Réfega, Valente de Oliveira, Fernando Real e Joaquim Lima Pereira, entre muitos outros), assim como a intervenção enérgica dos órgãos de imprensa de então e “forças vivas” locais, que, mesmo no período do Estado Novo, não se coibiram de afrontar o regime, erguendo uma voz coletiva na reivindicação de direitos até então nunca atendidos.

Isto num tempo em que na Assembleia Nacional havia quem objetasse que, dar “a qualquer cidadão o direito de ser doutor, mais não é do que entender que qualquer burro tem o direito de ser cavalo”.

Para os vindouros fica a convicção de que o que se conseguiu foi sempre ao poder de muita luta. Nada caiu do céu em Trás-os-Montes. A história da UTAD demonstra-o bem. Em 1970, Veiga Simão lançou o “embrião”. Depois, até ao “Politécnico” (IPVR), criado em agosto de 1973, foi uma luta de bastidores e de “lobbies” acionados na capital por Tomás Espírito Santo. Porém, sem cursos aprovados nem instalações, houve que voltar ao combate para o pôr a funcionar, o que só aconteceu em dezembro de 1975, com todas as decisões “arrancadas a ferros”. Em 1979, ao poder de greves e manifestações, Lisboa lá se rendeu, elevando o “Politécnico” a Instituto Universitário (IUTAD), então a única forma de atribuir o grau de licenciatura aos seus alunos.

Mas a região queria mais. Sobretudo mais cursos. Por isso, novos combates houve que travar em Lisboa, que continuava a olhar de soslaio para a região, assim nascendo, finalmente, em março de 1986, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

in Jornal de Notícias 27-8-2023


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Os pioneiros da UTAD

 


Lembrá-los hoje, meio século depois, é um dever cívico. O dever de quem sabe honrar a memória.

Veiga Simão, quando decidiu lançar o ensino superior em cidades como Vila Real, ouviu na Assembleia Nacional (hoje Assembleia da República) um qualquer animal, travestido de deputado da Nação, declarar: “Dar a qualquer cidadão o direito de ser doutor, mais não é do que entender que qualquer burro tem o direito de ser cavalo”.

Mas não se intimidou o jovem Ministro. E o Estado Novo tremeu. Nasceu assim (a 11 de março de 1973) o Instituto Politécnico de Vila Real, que logo evoluiu para Instituto Universitário e depois para Universidade. Aqui recordo os homens do leme que se seguiram (os já falecidos): o Prof. António Réfega, o Prof. Joaquim Lima Pereira, o Prof. Fernando Real (que me “desviou” do jornalismo para a UTAD e depois, enquanto Ministro do Ambiente, ainda me veio buscar para Assessor de Imprensa) e por fim o Prof. Torres-Pereira.

 E para os vindouros, fique a lembrança de que nada caiu do céu em Trás-os-Montes. Todos os avanços foram arrancados a ferros à custa de muitas batalhas. O Marão erguia-se como um obstáculo, mas havia outros ainda mais difíceis de transpor.

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Prega, frade, que pregas debalde!

 


Do interior rural desprotegido e negligenciado pelos governos centralistas da capital, que, ano após ano, foram encerrando escolas, maternidades e serviços de saúde, extinguiram, ou deslocaram para as grandes cidades, repartições, serviços públicos de proximidade, postos e delegações de empresas públicas… tudo, ou quase tudo, já se disse. E o mesmo sobre o falhanço absoluto da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, que nada de concreto conseguiu na implementação das anunciadas medidas para travar o despovoamento do interior. Os próprios fundos de coesão territorial, da UE, destinados a travar as assimetrias regionais, apenas conseguiram acentuar o fosso entre o interior e o litoral.

Nesse meio tempo, um esperançoso “Movimento pelo Interior”, fundado com grande consenso nacional, apresentou, em 2018, 24 medidas para, no prazo de três legislaturas, garantir uma clara reversão da situação dos territórios do interior. Grande consenso político, recorde-se, gerou este movimento, inclusive com o forte empenho dos autarcas socialistas, como era o caso presidente de Vila Real, Rui Santos, ao lembrar que uma das medidas propostas era para que, “qualquer novo organismo a ser criado pelo Estado central, a sua sede fosse num território do interior”.

Como diria o outro: “Prega, frade, que pregas debalde!”. Debalde mesmo. O Ministério da Cultura anunciou que, a partir de 1 de janeiro de 2024, dois novos organismos vão ser criados: a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal, que ficará em Lisboa, e o Instituto Público Património Cultural, com competências de salvaguarda e conservação do património cultural imóvel e imaterial, com sede no Porto.

Decididamente, o Estado não sabe como lidar com o Interior. Sempre com um hálito demagógico na boca quando fala da coesão do território, falha em absoluto nas suas políticas.


in JN, 24-7-2023