quinta-feira, 13 de abril de 2023

O meu adeus à Profª Conceição Martins

 


Partiu hoje (12 de abril), após longo tempo de doença. Notável professora e investigadora da UTAD, influenciou centenas de alunos que a têm como inapagável referência.

Trás-os-Montes deve-lhe muito. Ao longo de anos, desenvolveu rigorosos estudos científicos sobre as características singulares do fumeiro transmontano, especialmente de Vinhais e do Barroso, conduzindo à sua certificação, o que permitiu relançar a economia das populações, implementando uma indústria artesanal que estava moribunda, e assegurar a subsistência de muitas famílias rurais. O fumeiro transmontano é hoje uma referência em Portugal e no mundo!

Era filha do saudoso empresário António João Martins (o famoso “João da Salsicharia"), um dos maiores beneméritos de Vila Real, de quem fui um grande amigo. Poucos o saberão, mas a nossa memória ainda está ativa para o testemunhar: Este homem tinha comprado, há meio século atrás, a Quinta de Prados, onde hoje está o Campus da UTAD. Havia já pago o respetivo sinal ao antigo proprietário que vivia em Guimarães. Era um negócio chorudo, todos o sabiam. Porém, num famoso jantar rotário, com um grupo de amigos (vila-realenses como hoje já não há…), convenceram-no a desistir do negócio. E desistiu, num gesto altruísta que temos o dever de reconhecer, permitindo que fosse o "Politécnico" a adquirir a quinta.  E mais: contaram-nos que nem o sinal que tinha pago quis recuperar. Tratando-se de instalar uma futura universidade em Vila Real, todos tinham de estar de mãos dadas. Era assim nesses tempos.

Memórias que não podemos apagar, quando vemos partir uma senhora que tanto respeito e admiração nos merece. As minhas condolências à família.

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quarta-feira, 15 de março de 2023

Os “Diários” do Padre Fontes

 

Ao completar os 83 anos, quis celebrá-los com o lançamento dos seus “Diários”, um livro, publicado pela Âncora Editora, que ajuda a entender a personalidade singular de um sacerdote que, desde o refúgio das montanhas do Barroso, se tornou um dos mais conhecidos e controversos clérigos do país. “Parece bom rapaz, mas também pode ser o diabo”, assim o apresentou o Reitor ao lançá-lo numa das paróquias onde iniciou o sacerdócio.

António Lourenço Fontes dá agora a conhecer alguns dos seus traços mais pessoais, mostrando como superou, desde os tempos submissos do Seminário, as lutas íntimas, as contradições, as tentações, e, sobretudo, como impôs a si próprio os desafios do Evangelho. “Uma vida destas é de desesperar e de suicídio”, escrevia, num laivo de desalento, o jovem seminarista no seu “Diário”, para, no dia seguinte, autorreprovar-se: “Nestes dias és pior que um burro. Ele apenas vive para o vício que é o único bem que conhece. Tu ao menos sabes que há outro Bem maior”.

A sua natureza, como reconhece numa das páginas, “é igual à dos maiores santos ou dos maiores diabos e diabretes”. E não hesita em assumir o papel de “bruxo-mor” nos rituais diabólicos do Barroso. Por isso, o Padre Fontes não é, nem nunca foi, um padre como outro qualquer. Rebelde, satírico, respingão, estudioso da cultura do seu povo, cultivador de ciumeiras corporativas, sempre a resistir aos caprichos convencionais das autoridades religiosas, é, acima de tudo, um homem que luta em prol de um Céu na própria Terra. Perto das imperfeições humanas e longe das obsessões clericais.

“Não vás para padre que te capam”, avisavam-no os vizinhos quando ingressou no Seminário. E até o Bispo mais tarde o preveniu: “Vou fazer-te padre, mas tens de mudar a casaca”. Mudou? Não mudou? O melhor é ler os seus “Diários”.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 14-3-2023


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Coisas do Diabo...

 

Numa das minhas frequentes andanças pelas escolas, ouvi um dia uma professora/contadora de histórias transmitir aos alunos uma interessante fábula, para mim então desconhecida. Contava ela sobre um cavalo que, estando preso a uma árvore e a tentar soltar-se a todo o custo para conseguir abeirar-se de um pasto num lameiro próximo, o Diabo passou por ali e, com pena do animal, soltou-o. O cavalo comeu o que pôde, e logo a mulher do lavrador, dono do lameiro, ao ver o prejuízo, pegou na caçadeira do marido e matou o animal. O dono do cavalo, enraivecido com tal crueldade, fez pior: pegou também na sua caçadeira e matou a mulher. E daí a nada o marido desta, em represália, matou-o a ele. Depois, os filhos do dono do cavalo, mais revoltados ainda, pegaram o fogo à casa do lavrador, deixando-o sem nada. Por fim, o lavrador, empunhando de novo a caçadeira, matou os filhos do dono do cavalo. E então o povo da aldeia, que se juntou a chorar e a comentar tamanha tragédia, só dizia:

– Coisas do Diabo…

Ao que o Diabo, que estava ao pé e a escutar tais comentários, reagiu:

– Mas que fiz eu? Apenas soltei o cavalo!

Queria a narradora justificar, no seu engenho alegórico, como as coisas simples, insignificantes até, por vezes males-entendidos, pequenas brigas de que raramente se preveem as consequências, uma foto íntima ingenuamente partilhada numa rede social, podem ter efeitos devastadores. Mas poderíamos ainda ampliar a alegoria, na sua exegese, a uma multiplicidade de inquietações, como, por exemplo, o colocar uma simples cruz no retângulo de um voto, não imaginando como daí pode resultar uma reviravolta na vida de cada um, ou na vida de um país. Ou, até, perceber como num diálogo mal principiado entre nações pode estar a antemanhã de uma guerra.

É por estas e por outras que o povo metaforiza, na sua apurada sabedoria: “O Diabo sempre espreita nas frinchas”.

in JN, 14-2-2023


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Ter o “selo” da UNESCO é bom, mas… e depois?

 


Por estes dias, Portugal e Espanha viram ser integradas, pela UNESCO, na lista do Património Mundial, as Boas Práticas de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial Galego-Português, aprovando uma candidatura apresentada pelos dois países e promovida pela ONG “Ponte…nas Ondas”. Durou esta luta 18 anos. A primeira candidatura foi apresentada em 2004. Professores, etnólogos e antropólogos galegos e portugueses nunca desistiram de pugnar pelo máximo reconhecimento, junto da UNESCO, de um património comum a ambos os lados da fronteira, resultado do processo evolutivo que partiu de uma língua e cultura comuns desde a Idade Média.

Aprovada, finalmente, esta candidatura, há que ter agora presente que, também o Governo português, fica comprometido com as “Boas Práticas” que mereceram o supremo galardão mundial. Não basta ter o “selo” UNESCO e depois ignorar o trabalho e os projetos de quem procura no terreno garantir a salvaguarda deste património cada vez mais rodeado de ameaças por todos os lados. Incorporar nos currículos escolares o conhecimento, valorização e estima pelo PCI, implementar um plano de formação de professores neste domínio, incentivar iniciativas em centros educativos e associações culturais, é o mínimo que pode requerer-se após esta aprovação pela UNESCO.

O Ministério da Cultura acaba de excluir dos apoios do Estado para os próximos quatro anos a companhia de teatro Filandorra, que é, seguramente, uma das que, no Norte interior, melhor tem consagrado e divulgado nas escolas as franjas mais expressivas do nosso Património Cultural Imaterial. Se é desta forma que o Governo português se dispõe a apoiar as “Boas Práticas”, então bem pode a UNESCO esperar sentada pelos resultados da sua decisão.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-12-2022


domingo, 20 de novembro de 2022

De Trás-os-Montes… entre os melhores investigadores do mundo!

Nem sempre os “melhores do mundo” batem certo com as evocações do Presidente (que, ao que consta, está de malas feitas para o Qatar, onde espera aplaudir alguns dos que assim considera…).

Contudo, bem poderia evocar também estas duas jovens investigadoras transmontanas: Isabel Ferreira e Lillian Barros.

Bastar-lhes-ia a beleza que irradiam para serem notadas. Mas são notadas muito para além da sua beleza: acabam de ser declaradas, num dos mais prestigiados rankings mundiais da investigação científica (Clarivate Analytics), como fazendo parte dos cientistas mais citados do mundo, num universo de 6938 investigadores.

São transmontanas e vivem em Bragança. Os meus parabéns!

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sábado, 15 de outubro de 2022

Conseguirá ele dormir descansado?

 

Em menos de quinze dias, assistimos a estes dois desfechos dramáticos:

Primeiro, a Prof.ª Josefa Marques, do concelho de Almeida, doente oncológica, de 51 anos, requereu, como sempre fizera em anos anteriores, a mobilidade por doença para trabalhar próximo do seu domicílio, mas este ano, com a mudança da legislação, acabou colocada em Oleiros, a 207 kms de casa. Morreu sem obter resposta ao seu apelo junto do Ministério da Educação.

Agora, a Prof.ª Fernanda Barros, de Chaves, com a mesma idade, que há três anos estava colocada no seu concelho com mobilidade por doença incapacitante (problemas hepáticos, insuficiência cardíaca, diabetes, obesidade mórbida, três enfartes nos últimos anos e três cateterismos), pediu para continuar no seu concelho, mas, perante a nova (e hedionda) lei do Ministério, teve de regressar à escola onde é efetiva, em Castelo de Paiva. Também acabou por morrer, esta semana, sem conseguir resposta ao seu apelo junto do Ministério da Educação.

Que país é este, afinal? E como pôde este Ministro da Educação produzir uma lei ardilosa e desumana que limita, aos requerentes de mobilidade por doença incapacitante, a colocação numa escola num raio de até 50kms em “linha reta”? Só quem não conhece (ou não quer conhecer) a realidade do interior deste país pode urdir uma legislação tão estranha.

Conseguirá o Ministro dormir descansado, perante estes trágicos desfechos?

A minha homenagem à memória destas duas professoras e a minha solidariedade com as lágrimas e a revolta dos seus milhares de colegas, familiares e amigos.

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quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Recupere-se a autoridade e o prestígio dos professores!

 


Para refletir, especialmente, hoje, o Dia Mundial do Professor:

Acabe-se com a violência nas escolas e com a impunidade de alunos mal comportados e arruaceiros. Penalize-se criminal e exemplarmente encarregados de educação que agridem, intimidam e ameaçam professores. Acabe-se com a terrível burocracia que recai sobre os professores (até os processos relativos ao “cheque dentista” dos alunos estão sobre os seus ombros…), alivie-se o peso arrasador e absurdo da sua rotina profissional (turmas e horários sobrecarregados, testes, planos de aulas, planos de recuperação, aulas de apoio, reuniões sobre reuniões, resmas de atas, grelhas, relatórios...) que os obrigam a trabalhar de dia e de noite, madrugada fora. Acabe-se com as colocações a 100 e a 200 Kms de casa, que obrigam os professores a gastar quase metade do ordenado nas deslocações. Dêem-lhes condições para poderem também ter uma família.

E então sim, tal como antigamente, qualquer jovem alimentará o sonho de um dia poder vir a ser professor. As escolas tornar-se-ão num espaço onde apetece estar. O ensino superior encher-se-á de candidatos à docência, e jamais faltarão professores de qualidade nas escolas.