segunda-feira, 24 de julho de 2023

Prega, frade, que pregas debalde!

 


Do interior rural desprotegido e negligenciado pelos governos centralistas da capital, que, ano após ano, foram encerrando escolas, maternidades e serviços de saúde, extinguiram, ou deslocaram para as grandes cidades, repartições, serviços públicos de proximidade, postos e delegações de empresas públicas… tudo, ou quase tudo, já se disse. E o mesmo sobre o falhanço absoluto da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, que nada de concreto conseguiu na implementação das anunciadas medidas para travar o despovoamento do interior. Os próprios fundos de coesão territorial, da UE, destinados a travar as assimetrias regionais, apenas conseguiram acentuar o fosso entre o interior e o litoral.

Nesse meio tempo, um esperançoso “Movimento pelo Interior”, fundado com grande consenso nacional, apresentou, em 2018, 24 medidas para, no prazo de três legislaturas, garantir uma clara reversão da situação dos territórios do interior. Grande consenso político, recorde-se, gerou este movimento, inclusive com o forte empenho dos autarcas socialistas, como era o caso presidente de Vila Real, Rui Santos, ao lembrar que uma das medidas propostas era para que, “qualquer novo organismo a ser criado pelo Estado central, a sua sede fosse num território do interior”.

Como diria o outro: “Prega, frade, que pregas debalde!”. Debalde mesmo. O Ministério da Cultura anunciou que, a partir de 1 de janeiro de 2024, dois novos organismos vão ser criados: a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal, que ficará em Lisboa, e o Instituto Público Património Cultural, com competências de salvaguarda e conservação do património cultural imóvel e imaterial, com sede no Porto.

Decididamente, o Estado não sabe como lidar com o Interior. Sempre com um hálito demagógico na boca quando fala da coesão do território, falha em absoluto nas suas políticas.


in JN, 24-7-2023


sexta-feira, 23 de junho de 2023

O decano dos jornalistas

 


Completou este ano 70 anos de jornalismo. De jornalismo ativo, ininterrupto, com carteira profissional atualizada até 2024. Julgo não haver em Portugal um jornalista com tal dinâmica, longevidade e jovialidade. Daí designá-lo decano dos jornalistas portugueses.

João Barroso da Fonte, começou como pastor de vezeira e de vacas numa pequena aldeia do Barroso, dividindo o dia entre o trabalho infantil e a escola primária. Confessou numa entrevista recente que, com cinco anos de idade, já ia com os bovinos para os lameiros. E assim cresceu com a energia renovada dos renovos que despontam nos campos. Foi seminarista, combateu em África, foi jornalista do JN, fundou e/ou dirigiu jornais e revistas (“Comércio de Guimarães”, “A Voz de Guimarães”. “Gil Vicente”, “Poetas & Trovadores”, “9 Séculos”), foi colunista em 224 periódicos (inclusive no semanário “A Região”, sob a minha direção nos finais dos anos 80), escreveu dezenas de livros (poesia, ficção, ensaio), dirigiu o Paço dos Duques de Bragança e a delegação da Comunicação Social do Norte, foi vereador da cultura em Guimarães.

Enquanto combatia no Ultramar, escrevia para a revista “Crónica Feminina”, a troco de 80 escudos por artigo, recebidos em cheque pela esposa, em Guimarães, para ajuda no sustento dos filhos.

Fundou o Gabinete de Imprensa de Guimarães em 1976, responsável pelos primeiros cursos de formação de jornalistas em Portugal financiados pelo FAOJ, e, de seguida, lançou o Instituto Português da Imprensa Regional (IPIR), que permitiu aos profissionais e colaboradores da imprensa regional usufruir de um cartão de acreditação, legitimado pelo Governo, que conferia aos titulares os mesmos direitos da Carteira Profissional dos jornalistas.

 E, hoje continua a fazer furor com os artigos que escreve na imprensa regional. A energia é a mesma dos tempos áureos. Com ela planta e difunde cultura, saber, humanidade.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 23-6-2023


quarta-feira, 31 de maio de 2023

A heroica resistência dos professores

 


O que vemos, ouvimos e lemos traz-nos o retrato de um país enleado no desgoverno de líderes e decisores que, em seus atos desorientados, vêm ensombrar os horizontes de esperança que um novo ciclo de oportunidades vinha alimentando. Portugal, assim, mais parece um país-caravela, que navega à deriva em águas turbulentas, na busca, desesperada, de uma âncora que quanto mais se deseja mais ela tarda.

Pior que tudo ainda é assistirmos à destruição dos seus alicerces: a educação. É vergonhoso o trato a que está sujeita uma das classes profissionais mais imprescindíveis do país. A desautorização, o desrespeito, a humilhação, nas escolas e na sociedade, o congelamento de carreiras, as estranhas regras de mobilidade, a terrível burocracia a recair sobre os professores, as turmas e horários sobrecarregados, a violência impune nas escolas… vêm tornando o exercício da profissão de professor numa verdadeira tortura, não se vislumbrando, mau grado a profusão de greves e manifestações, sinais animosos de compreensão e justiça por parte de quem tem o poder de governar e decidir.

Ainda assim, os professores conseguem fazer milagres, ser inventivos, contrariando as desventuras de um sistema que lhes retira direitos de ano para ano, de um sistema inibidor do entusiasmo e da criatividade. E continuam a obter resultados, a plantar sorrisos entre as crianças, a abrir rumos de esperança no seio dos jovens.

Queiramos que, neste malbaratar de oportunidades e de bom senso, haja ainda uma réstia de decoro, e que a heroica resistência dos professores, com tantos sacrifícios já sofridos, permita, finalmente, recuperar a paz e a esperança de que a educação em Portugal tanto carece. E convençamo-nos de que, se ainda há esperança para Portugal, ela está na educação.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 31-5-2023


quinta-feira, 13 de abril de 2023

O meu adeus à Profª Conceição Martins

 


Partiu hoje (12 de abril), após longo tempo de doença. Notável professora e investigadora da UTAD, influenciou centenas de alunos que a têm como inapagável referência.

Trás-os-Montes deve-lhe muito. Ao longo de anos, desenvolveu rigorosos estudos científicos sobre as características singulares do fumeiro transmontano, especialmente de Vinhais e do Barroso, conduzindo à sua certificação, o que permitiu relançar a economia das populações, implementando uma indústria artesanal que estava moribunda, e assegurar a subsistência de muitas famílias rurais. O fumeiro transmontano é hoje uma referência em Portugal e no mundo!

Era filha do saudoso empresário António João Martins (o famoso “João da Salsicharia"), um dos maiores beneméritos de Vila Real, de quem fui um grande amigo. Poucos o saberão, mas a nossa memória ainda está ativa para o testemunhar: Este homem tinha comprado, há meio século atrás, a Quinta de Prados, onde hoje está o Campus da UTAD. Havia já pago o respetivo sinal ao antigo proprietário que vivia em Guimarães. Era um negócio chorudo, todos o sabiam. Porém, num famoso jantar rotário, com um grupo de amigos (vila-realenses como hoje já não há…), convenceram-no a desistir do negócio. E desistiu, num gesto altruísta que temos o dever de reconhecer, permitindo que fosse o "Politécnico" a adquirir a quinta.  E mais: contaram-nos que nem o sinal que tinha pago quis recuperar. Tratando-se de instalar uma futura universidade em Vila Real, todos tinham de estar de mãos dadas. Era assim nesses tempos.

Memórias que não podemos apagar, quando vemos partir uma senhora que tanto respeito e admiração nos merece. As minhas condolências à família.

www.facebook.com/alexandre.parafita.escritor


quarta-feira, 15 de março de 2023

Os “Diários” do Padre Fontes

 

Ao completar os 83 anos, quis celebrá-los com o lançamento dos seus “Diários”, um livro, publicado pela Âncora Editora, que ajuda a entender a personalidade singular de um sacerdote que, desde o refúgio das montanhas do Barroso, se tornou um dos mais conhecidos e controversos clérigos do país. “Parece bom rapaz, mas também pode ser o diabo”, assim o apresentou o Reitor ao lançá-lo numa das paróquias onde iniciou o sacerdócio.

António Lourenço Fontes dá agora a conhecer alguns dos seus traços mais pessoais, mostrando como superou, desde os tempos submissos do Seminário, as lutas íntimas, as contradições, as tentações, e, sobretudo, como impôs a si próprio os desafios do Evangelho. “Uma vida destas é de desesperar e de suicídio”, escrevia, num laivo de desalento, o jovem seminarista no seu “Diário”, para, no dia seguinte, autorreprovar-se: “Nestes dias és pior que um burro. Ele apenas vive para o vício que é o único bem que conhece. Tu ao menos sabes que há outro Bem maior”.

A sua natureza, como reconhece numa das páginas, “é igual à dos maiores santos ou dos maiores diabos e diabretes”. E não hesita em assumir o papel de “bruxo-mor” nos rituais diabólicos do Barroso. Por isso, o Padre Fontes não é, nem nunca foi, um padre como outro qualquer. Rebelde, satírico, respingão, estudioso da cultura do seu povo, cultivador de ciumeiras corporativas, sempre a resistir aos caprichos convencionais das autoridades religiosas, é, acima de tudo, um homem que luta em prol de um Céu na própria Terra. Perto das imperfeições humanas e longe das obsessões clericais.

“Não vás para padre que te capam”, avisavam-no os vizinhos quando ingressou no Seminário. E até o Bispo mais tarde o preveniu: “Vou fazer-te padre, mas tens de mudar a casaca”. Mudou? Não mudou? O melhor é ler os seus “Diários”.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 14-3-2023


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Coisas do Diabo...

 

Numa das minhas frequentes andanças pelas escolas, ouvi um dia uma professora/contadora de histórias transmitir aos alunos uma interessante fábula, para mim então desconhecida. Contava ela sobre um cavalo que, estando preso a uma árvore e a tentar soltar-se a todo o custo para conseguir abeirar-se de um pasto num lameiro próximo, o Diabo passou por ali e, com pena do animal, soltou-o. O cavalo comeu o que pôde, e logo a mulher do lavrador, dono do lameiro, ao ver o prejuízo, pegou na caçadeira do marido e matou o animal. O dono do cavalo, enraivecido com tal crueldade, fez pior: pegou também na sua caçadeira e matou a mulher. E daí a nada o marido desta, em represália, matou-o a ele. Depois, os filhos do dono do cavalo, mais revoltados ainda, pegaram o fogo à casa do lavrador, deixando-o sem nada. Por fim, o lavrador, empunhando de novo a caçadeira, matou os filhos do dono do cavalo. E então o povo da aldeia, que se juntou a chorar e a comentar tamanha tragédia, só dizia:

– Coisas do Diabo…

Ao que o Diabo, que estava ao pé e a escutar tais comentários, reagiu:

– Mas que fiz eu? Apenas soltei o cavalo!

Queria a narradora justificar, no seu engenho alegórico, como as coisas simples, insignificantes até, por vezes males-entendidos, pequenas brigas de que raramente se preveem as consequências, uma foto íntima ingenuamente partilhada numa rede social, podem ter efeitos devastadores. Mas poderíamos ainda ampliar a alegoria, na sua exegese, a uma multiplicidade de inquietações, como, por exemplo, o colocar uma simples cruz no retângulo de um voto, não imaginando como daí pode resultar uma reviravolta na vida de cada um, ou na vida de um país. Ou, até, perceber como num diálogo mal principiado entre nações pode estar a antemanhã de uma guerra.

É por estas e por outras que o povo metaforiza, na sua apurada sabedoria: “O Diabo sempre espreita nas frinchas”.

in JN, 14-2-2023


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Ter o “selo” da UNESCO é bom, mas… e depois?

 


Por estes dias, Portugal e Espanha viram ser integradas, pela UNESCO, na lista do Património Mundial, as Boas Práticas de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial Galego-Português, aprovando uma candidatura apresentada pelos dois países e promovida pela ONG “Ponte…nas Ondas”. Durou esta luta 18 anos. A primeira candidatura foi apresentada em 2004. Professores, etnólogos e antropólogos galegos e portugueses nunca desistiram de pugnar pelo máximo reconhecimento, junto da UNESCO, de um património comum a ambos os lados da fronteira, resultado do processo evolutivo que partiu de uma língua e cultura comuns desde a Idade Média.

Aprovada, finalmente, esta candidatura, há que ter agora presente que, também o Governo português, fica comprometido com as “Boas Práticas” que mereceram o supremo galardão mundial. Não basta ter o “selo” UNESCO e depois ignorar o trabalho e os projetos de quem procura no terreno garantir a salvaguarda deste património cada vez mais rodeado de ameaças por todos os lados. Incorporar nos currículos escolares o conhecimento, valorização e estima pelo PCI, implementar um plano de formação de professores neste domínio, incentivar iniciativas em centros educativos e associações culturais, é o mínimo que pode requerer-se após esta aprovação pela UNESCO.

O Ministério da Cultura acaba de excluir dos apoios do Estado para os próximos quatro anos a companhia de teatro Filandorra, que é, seguramente, uma das que, no Norte interior, melhor tem consagrado e divulgado nas escolas as franjas mais expressivas do nosso Património Cultural Imaterial. Se é desta forma que o Governo português se dispõe a apoiar as “Boas Práticas”, então bem pode a UNESCO esperar sentada pelos resultados da sua decisão.

In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-12-2022