domingo, 21 de outubro de 2012

Manuel António Pina



São sempre muito escassas e frágeis as palavras quando queremos traduzir os sentimentos mais profundos da amizade e da admiração no momento em que vemos partir um companheiro.

Manuel António Pina, sepultado hoje na cidade do Porto, deixa a sua marca no tempo. Deixa-a nos livros e nas páginas dos jornais e revistas, mas deixa-a em especial no coração dos que tiveram a sorte de o ter por perto. Foi a seu convite, enquanto coordenador da secção cultural do JORNAL DE NOTÍCIAS, que aí iniciei a minha colaboração a partir dos finais do século passado, após ter abandonado vinte anos de jornalismo profissional.

A cultura fica agora mais pobre, todos o dirão, ou não tivesse sido um dos autores mais premiados da lusofonia. Mas pobre fica também a cidadania, onde o eco de vozes corajosas, sábias e responsáveis, tanta falta faz.


Alexandre Parafita
In Diário de Trás-os-Montes
 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aquilino Ribeiro Machado

Filho do escritor Aquilino Ribeiro, de quem herdou a fibra de intelectual interventivo, e neto de Bernardino Machado, que foi duas vezes Presidente da República nos anos conturbados do primeiro quartel do século XX, Aquilino Ribeiro Machado faleceu anteontem à noite, com 82 anos de idade. Foi o primeiro presidente da Câmara Municipal de Lisboa eleito após a revolução de Abril e fora também um dos fundadores do Partido Socialista. Deixa um historial de vida que importa conhecer e honrar.
Senhor de um pensamento lúcido até ao fim da sua vida, deixou escrito já perto do termo dos seus dias: «A democracia cada vez se assemelha mais, entre nós, a uma velha mangueira carregada de água, que aqui está cheia de bossas e à frente magrinha pelo fluir menos afogado da corrente que a atravessa. Quer no sitio das bossas quer no dos estrangulamentos, ameaça, a todo o momento, rebentar.»
Uma grande lição para aprender e ter bem presente nos dias que correm!
Alexandre Parafita
In Diário de Trás-os-Montes

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Júlio Montalvão Machado: a cultura ficou mais pobre



Foi conhecida esta noite a morte de Júlio Montalvão Machado, médico flaviense, conhecido especialmente como político, historiador e homem de letras. A Região perde, assim, uma figura que muito fez pela cultura e pela afirmação da transmontaneidade.
Como Governador Civil de Vila Real, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, teve papel relevante na fundação da nossa Universidade, ao reunir e impulsionar as forças vivas locais em torno do projecto emergente do então Instituto Politécnico.
Como homem de cultura escreveu algumas das páginas fundamentais na compreensão da história antiga e moderna da região transmontana, sendo de realçar a obra “Crónica da Vila Velha de Chaves”, a par de valiosos estudos sobre a implantação da República, a história dos Defensores de Chaves e a vida do antigo Primeiro-Ministro e seu familiar António Granjo, cruelmente assassinado na famigerada Noite Sangrenta da 1ª República.

         Pessoalmente, devo-lhe a gratidão da sua amizade, que deixou vincada em vários momentos inesquecíveis, em especial na apresentação que fez do meu livro “A Mitologia dos Mouros”, em Valpaços, onde aprendi quase tanto como durante os meses em que o escrevi.  
Alexandre Parafita
in Diário de Trás-os-Montes
Na foto de:  
o Presidente da Câmara de Valpaços, Eng. Francisco Tavares, 
o então Governador Civil, Dr. António Martinho, eu próprio, 
e o Dr. Júlio Montalvão Machado apresentando a obra.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

António Lourenço Fontes: Um padre em busca de um Céu na Terra


Confessou, numa biografia que sobre si se escreveu há uns dez anos atrás, ter escolhido ir para o Seminário para poder ter um rádio. Isto porque, nos recuados anos quarenta do Sec. XX, possuir um rádio representava um poder sem igual. E quem o possuía na sua aldeia, Cambezes do Rio, era, unicamente, o pároco, que do alto da janela, onde o exibia orgulhoso, dava oportunidade aos paroquianos de ouvirem as celebrações religiosas.

Para o Padre Fontes, contudo, possuir um rádio traduzia um poder que ia para além do prestígio. Era um poder que valia pela capacidade única de avistar horizontes amplos, infindáveis, mas também de permitir uma certa evasão intelectual. E foi, em boa verdade, este poder que começou por seduzir o Padre Fontes na inocência dos seus primeiros anos.

“Não vás para padre que te capam”, ainda o avisaram os vizinhos. Mas a ninguém deu ouvidos, nascendo assim um dos padres mais conhecidos e mais controversos do país. Irreverente quanto baste, mediático, combativo, insatisfeito, tornou-se um verdadeiro “ex-libris” das terras de Barroso. Só para o conhecerem, formam-se fiadas de excursões de todo o País. Enche, como poucos, as igrejas onde celebra.

Homem simples, comum, rebelde, satírico, respingão, jamais se afastou do perfil conspícuo de cura de aldeia, preocupado com a melhoria espiritual e material da vida dos seus paroquianos. Ganhou, no entanto, relevo natural o carisma de homem público, estudioso da cultura do seu povo, conferencista atarefado, resistente a caprichos convencionais das autoridades religiosas, cultivador de “ciumeiras” corporativas.

Quando em tempos lhe perguntaram se, como homem “bem apessoado”, nunca teve intimidades com mulheres, ele respondeu simplesmente:

– Não tenho por que me queixar.

Tal e qual. Espontâneo e directo. Deixando ao critério de ouvidos mal ou bem intencionados o desfrute caprichoso da resposta ambígua. Assim é o Padre Fontes. Um homem que luta em prol de um Céu na própria Terra (situada no Barroso, de preferência). Perto das imperfeições humanas e longe de algumas obsessões clericais.


Ps. – Muitos esperavam que ontem (10 de junho) o Presidente da República condecorasse o Padre Fontes, correspondendo ao apelo de um número de qualificados proponentes (pelo menos uma dezena de deputados da Nação). Apelo ignorado, como se viu, o que em nada nos espantou: há universos culturais e simbólicos enraizados no Portugal profundo que, por ignorância ou preconceito, continuam a passar ao largo da lógica snob e bafienta dos salões da capital.


Alexandre Parafita
in Diário de Trás-os-Montes

Foto de Ana André
Legenda: Alexandre Parafita, Bento da Cruz, Padre Fontes, Pires Cabral

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Semana Santa no Portugal profundo


1 – As tradições da Semana Santa apresentam-se, um pouco por todo o país, preenchidas com rituais cristãos e pagãos, cuja origem se perde na lonjura dos tempos. Às vias sacras, endoenças e autos da paixão, juntam-se as queimas do judas, o enterro do bacalhau, a corrida dos rapazes aos sinos, entre outras.

2 – As tradições dos ovos e coelhos da Páscoa, importadas de outras culturas, são reminiscências pagãs, associadas ao culto da fertilidade, sem origens definidas, que tanto podem vir da Europa Oriental como da China.

3 – Em Portugal, sobretudo em Trás-os-Montes, a tradição gastronómica incide sobre a confecção dos folares. São particularmente famosos os de Vinhais e de Valpaços. Após o prolongado jejum da quaresma, os folares da Páscoa aparecem recheados das melhores carnes que, ao longo de semanas, estiveram arredadas das mesas dos camponeses.

4 – Quanto aos autos da paixão, as endoenças e as vias-sacras, traduzem cenários de luto, de reflexão dolorida, expressos dos tons roxos e negros das celebrações. Algumas aldeias ainda conservam as 14 cruzes, ou cruzeiros, que representam as 14 estações que a via-sacra cumpre simbolizando o calvário de Cristo a caminho da crucificação.

5 – Os autos da paixão, enquanto representações de teatro popular, que narram os últimos dias de Cristo, desde a traição até à morte e deposição na cruz, envolvem cerca de quarenta figuras humanas recrutadas no seio do povo, muitas delas pessoas idosas e iletradas, pelo que conservam na memória, durante décadas e décadas, os dizeres dos personagens que encarnam. Alguns dos seus papéis eram, outrora, desempenhados com tal emoção e realismo, que, no ato de agredir ou chicotear, as vítimas chegavam a sair em braços e ensanguentadas de verdade das respectivas cenas, havendo ainda casos em que os atores ganhavam, pela vida fora, as alcunhas dos papéis que representavam, como por exemplo, Cristo, Judas, Caifaz, Pilatos, Fariseu ou Diabo.

6 – No concelho de Vinhais, há a tradição das endoenças, um ritual carregado de emoção, especialmente quando narra a procura desesperada de Cristo por Nossa Senhora, ora seguindo pelas ruas o seu rasto de sangue, ora perguntando a uns e outros se alguém o viu.

7 – Por sua vez, a queima do Judas e o enterro do bacalhau representam impulsos eufóricos de catarse e libertação perante os constrangimentos quaresmais.

8 – No Sábado de Aleluia, à meia-noite, havia outrora a tradição de os rapazes correrem a tocar os sinos das igrejas, que quebravam o silêncio quaresmal. Até então, os toques dos sinos eram proibidos, sendo substituídos por pungentes matracas de madeira e arame, que emitiam sons ritmados, com as quais um mensageiro percorria as ruas apelando ao recolhimento, à reflexão e à oração.

9 – A retomada do toque dos sinos à meia-noite de sábado era disputada pelos rapazes, na crença de que o primeiro que tocasse o sino seria recompensado na descoberta dos ninhos das melhores aves, especialmente a perdiz, o que, noutros tempos, era algo muito cobiçado.

10 – Em Montalegre, mantém-se viva a Queima de Judas, no Sábado de Aleluia. A Câmara Municipal organiza um concurso para melhor mobilizar a população. Mas esta tradição é igualmente ativa noutros pontos do país: Palmela, Azeitão, Vila Nova de Cerveira, Matosinhos, Santa Comba Dão, Tondela, Viana do Castelo, Vila do Conde, Milheirós de Poiares, Tondela, Ponte do Lima, entre outros. Nela se representa o julgamento de Judas Iscariotes, por ter traído Cristo por trinta dinheiros. O povo, armado de tochas, aguilhadas e outros meios, aguarda os momentos da acusação e defesa, a leitura da sentença e, por fim, participa no castigo fatal investindo sobre um sinistro boneco que se incendeia ou explode. Este castigo simboliza a expiação dos pecados do mundo e o fogo tem um carácter simbólico de purificação.

11 – Em Vila Real, esta mesma tradição tem o nome de “Enterro do Bacalhau”, um ritual que responde a outros “enterros”, de sentido inverso, outrora frequentes na região transmontana (enterro do galo na quarta feira de cinzas, enterro do Entrudo…). A tradição do enterro do bacalhau é hoje especialmente praticada na localidade de Constantim, nos subúrbios de Vila Real. Noutros tempos, era toda a cidade a vibrar com o ritual. Um bacalhau enorme feito de cartão seguia escoltado por militares e era julgado perante carrascos, juízes e advogados, tendo, como testemunhas de defesa, os marçanos das mercearias e, de acusação, os empregados dos talhos. O castigo a incidir sobre o bacalhau simboliza a libertação dos constrangimentos da Quaresma, que não permitia o consumo de carne. A partir do Sábado da Aleluia, dia da celebração, já o povo deixa de estar limitado ao consumo de peixe e festeja assim o regresso da carne.

12 – Por fim o Domingo de Páscoa. Mantém-se em Portugal a tradição do Compasso, traduzida num cortejo presidido pelo pároco que visita as casas dos fiéis dando a cruz a beijar e aspergindo com água benta os compartimentos. A carência de sacerdotes tem levado a que muitas aldeias festejem no domingo seguinte a Pascoela, que será a derradeira oportunidade de verem o Compasso a entrar nas suas casas.


Alexandre Parafita
in
Diário de Trás-os-Montes
Foto de: Mário Henriques