quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

 

«Tenho uma vida de homem primitivo que passa o tempo a fazer redações, porque isso é o que dá sentido e direção aos meus dias» e “julgo que não sei fazer mais nada, que não sirvo para mais nada», «sem escrever, mesmo que seguisse vivo, a minha vida perderia todo o sentido», assim o ouvi-o dizer, com uma humildade espantosa, quando, em 6 de junho de 2007, recebeu o Doutoramento Honoris Causa na UTAD, a mais alta distinção que uma Universidade tem para atribuir.

Mas o homem que assim falava era já reconhecido com um dos escritores portugueses mais lidos em todo o mundo, com os seus livros traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, italiano, búlgaro, checo, dinamarquês, esloveno, holandês, norueguês, sueco, romeno, finlandês, etc., etc.

Conheceu a dura guerra colonial, em Angola, que viria a marcar grande parte da sua obra literária, iniciada com a “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”, a que seguiram dezenas de títulos que retratam a realidade portuguesa mais profunda, mais visceral, única na sua força, violência, sarcasmo, ironia. Tantos e tantos têm reconhecido como uma tremenda injustiça ter-lhe sido negado o Prémio Nobel da Literatura.

Partiu hoje, fisicamente, mas fez-nos herdeiros de uma memória inapagável e de uma obra que muito perdurará no tempo.

(in «Diário de Trás-os-Montes», 5-3-2026)